A Bayer inaugurou no estado de Querétaro, no México, sua primeira "ForwardFarm" no país, uma fazenda comercial que servirá como vitrine para um novo modelo de produção agrícola. Em uma área de 70 hectares, a companhia alemã testará em condições reais uma fórmula que combina sementes híbridas, ferramentas digitais e manejo de recursos para aumentar a produtividade do milho e, ao mesmo tempo, reduzir o consumo de insumos como a água. A iniciativa foi reportada pelo portal mexicano Expansión.
O movimento não é isolado. Ele acontece em um contexto de alta complexidade para o agronegócio mexicano, que vive o paradoxo de ser um grande produtor agrícola e, simultaneamente, um forte dependente do milho amarelo importado dos Estados Unidos, insumo essencial para a alimentação animal. A questão escalou para uma disputa comercial no âmbito do T-MEC, o acordo que substituiu o Nafta. A tese da Bayer é que a solução para este impasse não está apenas na política, mas na tecnologia — e, crucialmente, em uma tecnologia que se pague no mesmo ciclo produtivo.
O pacote como argumento de venda
A estratégia da Bayer não é vender produtos isolados, mas um sistema integrado. O pilar do projeto são as sementes de milho de baixa estatura, como os híbridos Vitala e Preceon, que não são transgênicos e permitem maior densidade de plantio com menor risco de acamamento por ventos. A elas se somam a plataforma digital FieldView, que coleta dados da lavoura para orientar decisões sobre plantio e fertilização, e o dispositivo Carlota, que monitora a umidade do solo para recomendar o momento e a quantidade exata de irrigação. A promessa é um aumento de produtividade de até 25% com uma redução de até 30% no uso de água, segundo dados preliminares da empresa.
O que a Bayer está empacotando sob o rótulo de "agricultura regenerativa" é, na essência, um argumento de negócio. A companhia parece ter entendido que a sustentabilidade só ganha escala no campo se vier acompanhada de rentabilidade. Nas palavras de Manuel Bravo, CEO da Bayer no México, "não se vale pensar que a recuperação do planeta se viva à costa do produtor". A ForwardFarm, que já existe em países como Brasil e Argentina, funciona como uma prova de conceito em escala comercial, onde a rentabilidade é a principal métrica de sucesso. O objetivo é que outros agricultores vejam os resultados e sejam convencidos pelos números, não pelo discurso.
Do campo experimental ao pequeno produtor
O desafio, contudo, está na transição do ambiente controlado para a realidade pulverizada do campo. A escolha do Rancho Hontoria como parceiro não foi acidental. Trata-se de uma operação agropecuária que combina o cultivo de milho para silagem com a produção de leite, o que lhe garante um fluxo de caixa diário e dilui os riscos associados a uma única colheita anual. Este é um cenário muito distinto daquele enfrentado pela maioria dos agricultores, que dependem de uma safra para recuperar todo o investimento do ano.
A questão da escala é o ponto nevrálgico. De acordo com a própria Bayer, 85% dos produtores mexicanos possuem menos de 10 hectares. Para esse público, o acesso a um pacote tecnológico de alto valor agregado, que inclui sementes especiais e plataformas digitais, é um desafio financeiro e operacional. A empresa aposta em seus canais de distribuição e em linhas de financiamento, mas a lacuna entre a infraestrutura do Rancho Hontoria e a de um pequeno produtor é imensa. O sucesso da iniciativa não será medido apenas pela produtividade obtida em Querétaro, mas pela capacidade de replicar o modelo em condições menos ideais.
A Bayer adota uma postura cautelosa, afirmando que avaliará a recepção desta primeira unidade antes de planejar a expansão, talvez para o setor de frutas e hortaliças. A ForwardFarm é, portanto, um laboratório a céu aberto, cujo principal experimento não é agronômico, mas econômico. A pergunta que a empresa busca responder no México é a mesma que ecoa em todo o agronegócio global: a tecnologia pode, de fato, fechar a conta do produtor?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





