A Polícia Federal desvelou um esquema que teria movimentado R$ 7,15 bilhões em cessões de crédito consignado fictícias, envolvendo a Tirreno Consultoria e o Banco Master. A operação, que também é investigada em conexão com o Banco de Brasília (BRB), utilizava uma sofisticada esteira digital para forjar a documentação necessária.
O ponto de inflexão da investigação, contudo, não foi um depoimento ou um erro contábil, mas algo mais sutil: os metadados dos arquivos. Segundo reportagem do Olhar Digital, a análise forense dos documentos digitais expôs a cronologia da fraude, revelando que a tentativa de apagar o passado deixou um rastro indelével.
A linha de montagem da fraude
A operação contava com uma verdadeira linha de produção digital. Dados de clientes de operações antigas eram extraídos e organizados em planilhas, servindo de matéria-prima para a criação de documentos em massa. Ferramentas como a mala direta do Microsoft Word eram usadas para gerar milhares de procurações em lote. Scripts em linguagem C# eram empregados para manipular arquivos PDF, extraindo seletivamente páginas de assinatura de termos de consentimento.
O objetivo era montar dossiês que parecessem legítimos, combinando Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), procurações e termos de consentimento. Contudo, a tentativa de criar um lastro documental retroativo esbarrou na própria natureza dos registros digitais. O esforço para apagar datas e informações de comprovantes de transferência, por exemplo, se mostrou um desafio complexo demais para ser executado manualmente em escala, gerando inconsistências que chamaram a atenção.
O rastro que o digital não apaga
Foi na análise das assinaturas digitais que a fraude se desfez. A perícia da PF encontrou discrepâncias gritantes entre a data impressa no documento e o registro criptográfico da assinatura. Em um dos casos citados na investigação, uma Cédula de Crédito Bancário datada de janeiro foi, na verdade, assinada digitalmente meses depois, em junho. O timestamp, imutável, serviu como prova da manipulação.
As tentativas de limpar os rastros eram explícitas. Em conversas registradas, um gerente do Banco Master instruiu um subordinado a “excluir a data” de um termo de consentimento. A edição foi feita, removendo a data da visualização do PDF. Porém, o histórico do arquivo e os metadados preservaram a cronologia exata da alteração, fornecendo aos investigadores a sequência dos fatos. Mesmo com a auditoria da Deloitte apontando inconsistências, a orientação interna era tratá-las como “erro operacional”.
O caso do Banco Master serve como um estudo sobre a permanência do rastro digital. Em um ambiente de negócios onde documentos nascem e vivem em formato eletrônico, a ideia de que é possível simplesmente reescrever a história se mostra uma falácia. A mesma tecnologia que permite a criação de fraudes complexas é a que fornece as ferramentas para desvendá-las, lembrando que, no mundo dos metadados, a memória é longa.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Olhar Digital





