A mais recente escalada na disputa comercial entre Estados Unidos e Canadá culminou no colapso das negociações e na imposição de tarifas americanas de 50% sobre cerca de US$ 20 bilhões em produtos canadenses. A medida, que entrou em vigor em 22 de agosto, provocou uma retaliação iminente de Ottawa, com sobretaxas previstas para 8 de setembro sobre aço, laticínios, equipamentos agrícolas e eletrônicos americanos.
Contudo, a reação mais contundente não veio do governo canadense, mas de dentro dos próprios Estados Unidos. Segundo reportagem da revista Fortune, uma coalizão bipartidária de governadores e senadores de estados fronteiriços — cujas economias são profundamente integradas à do vizinho do norte — está abertamente em confronto com a política da Casa Branca. A leitura é que, para esses líderes, a guerra comercial não é uma abstração geopolítica, mas uma ameaça concreta a empregos e empresas locais.
O custo político na fronteira
A dissidência mais notável vem de figuras do Partido Republicano, quebrando a unidade partidária em torno do presidente. Em Vermont, o governador Phil Scott, um crítico consistente da medida, classificou as tarifas como "impostos que aumentam os custos para famílias, agricultores e empregadores de ambos os lados da fronteira". A posição se explica pela dependência econômica: o Canadá responde por 31% das exportações totais de Vermont, mais que o dobro do segundo maior mercado.
No Maine, a senadora republicana Susan Collins, que enfrenta uma reeleição competitiva, chamou a imposição de "um erro", ecoando a preocupação com setores vitais como o de lagostas, madeira e batatas, que dependem do processamento no Canadá. Junto ao senador independente Angus King, ela forma uma frente unificada que há 18 meses alerta para os riscos da escalada. O que antes era um aviso cauteloso, agora soa como a constatação de um prejuízo já em curso.
O eixo automotivo e a escalada
Em Michigan, o epicentro da indústria automotiva americana, a oposição é liderada pela governadora democrata Gretchen Whitmer, que alerta para o risco a 1,2 milhão de empregos no estado. A disputa atinge diretamente as "Três Grandes de Detroit", já que o Canadá retaliou com cortes nas cotas de importação isentas de tarifas para montadoras como Stellantis e GM, que haviam reduzido a produção em solo canadense. A tensão promete aumentar, com o governo Trump anunciando uma nova tarifa de 50% sobre veículos e autopeças canadenses a partir de janeiro de 2027.
O ponto de discórdia final que selou o fracasso das negociações teria sido, segundo a Politico, as tarifas americanas sobre caminhões pesados. Enquanto Washington e Ottawa trocam acusações sobre quem introduziu "demandas de última hora", o resultado prático é o endurecimento das posições. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, chegou a afirmar que seu país está "em guerra" econômica com os EUA.
Para os estados na linha de frente, a batalha não foi solicitada e seus custos já são sentidos. A unidade política vista em Maine, Vermont e Michigan sinaliza uma profunda desconexão entre a estratégia macro da Casa Branca e a realidade micro das economias regionais, que agora se veem forçadas a administrar as consequências de uma disputa que não ajudaram a criar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





