A Ucrânia está infligindo danos significativos à máquina de guerra russa com uma sofisticada campanha de drones que atinge refinarias, centros logísticos e bases militares. No coração dessa estratégia, no entanto, reside uma dependência crescente e crítica de um ecossistema tecnológico majoritariamente americano, que vai da conectividade à inteligência artificial.

Segundo uma extensa reportagem do Business Insider, a eficácia dos ataques ucranianos é sustentada por um tripé formado pela Starlink, da SpaceX; pelo software de IA da Palantir; e por drones como o Hornet, da Perennial Autonomy. Essa simbiose tecnológica confere a Kiev uma vantagem assimétrica vital, mas também cria uma espada de Dâmocles: o controle sobre essa infraestrutura crítica não está em mãos ucranianas, mas em salas de reunião no Vale do Silício e em gabinetes em Washington.

O ecossistema da dependência

A guerra moderna, para a Ucrânia, é definida pela integração de sistemas comerciais de alta tecnologia. A Starlink, de Elon Musk, tornou-se a espinha dorsal operacional de inúmeras missões. Oficiais em campo descrevem a diferença entre operar com e sem a rede de satélites como “dois paradigmas absolutamente diferentes”. A tecnologia simplifica drasticamente as comunicações, eliminando a necessidade de complexos cálculos de radiofrequência e permitindo que operadores mantenham uma conexão de vídeo ao vivo com o drone até momentos antes do impacto. Isso possibilita correções de curso em tempo real e avaliação precisa dos danos.

A camada de hardware é igualmente dependente. O drone Hornet, da Perennial Autonomy — empresa fundada pelo ex-CEO do Google, Eric Schmidt —, tornou-se um dos veículos de ataque de médio alcance mais utilizados. Com um custo unitário estimado entre US$ 7,5 mil e US$ 10 mil, ele oferece uma taxa de retorno impressionante: fontes próximas à empresa estimam que para cada dólar gasto em um Hornet, cerca de US$ 60 em ativos russos são destruídos. Finalmente, o software da Palantir, cofundada por Peter Thiel, agrega dados de inteligência para otimizar rotas de voo, identificar corredores seguros e evitar as defesas aéreas e de guerra eletrônica russas, transformando cada missão em uma operação guiada por dados.

A vulnerabilidade estratégica

Essa dependência não é meramente teórica e já gera atritos e ansiedade em Kiev. Oficiais ucranianos expressam nervosismo sobre a possibilidade de a Starlink ser desligada por uma decisão unilateral de Musk. “O que acontece se Elon Musk ou alguém na SpaceX desligar tudo?”, questionou um oficial à reportagem. A preocupação tem fundamento. O próprio presidente Volodymyr Zelenskyy admitiu que uma disputa sobre a permissão para usar a Starlink em ataques dentro do território russo contribuiu para um desentendimento com seu então ministro da Defesa, que teria dado garantias infundadas sobre o acesso.

O episódio ilustra a nova realidade geopolítica: decisões tomadas por executivos de tecnologia podem ter um impacto tão imediato no campo de batalha quanto as de generais ou diplomatas. A Ucrânia se vê na posição de ter que negociar não apenas com governos, mas também com corporações cujos interesses nem sempre se alinham com os seus objetivos de guerra. Enquanto isso, a Rússia trabalha para desenvolver seu próprio sistema de comunicação via satélite, o Rassvet, que poderia ser implementado até 2027, erodindo a vantagem tecnológica que a Ucrânia hoje desfruta. A corrida armamentista agora se estende à infraestrutura de comunicação comercial no espaço.

A digitalização da guerra deu à Ucrânia ferramentas para resistir a um adversário muito maior, mas o preço dessa modernização é uma nova forma de soberania mitigada. A capacidade de defesa do país está, em parte, atrelada à continuidade de serviços comerciais estrangeiros. A questão que paira sobre Kiev — e que serve de lição para outras nações — é como garantir autonomia estratégica quando as armas mais eficazes são, na verdade, serviços controlados por terceiros.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider