A Amazon está operando um galpão em Las Vegas, de código VGT3, com um propósito singular: digitalizar livros em escala industrial para treinar seus modelos de inteligência artificial. O processo, no entanto, é destrutivo. As obras são desmembradas, suas lombadas cortadas por uma guilhotina, as páginas escaneadas em alta velocidade e, ao final, descartadas em grandes caixas de papelão como lixo indiferenciado. A revelação vem de uma reportagem do site 404 Media, que utilizou um dispositivo de rastreamento para confirmar o destino de um lote de livros e entrevistou um funcionário anônimo que trabalha no local.
O que a operação expõe é a fome insaciável dos modelos de IA por dados e a realidade física, por vezes brutal, por trás da nuvem digital. Segundo o funcionário, a justificativa inicial internamente era de que o material seria para o Kindle, mas a natureza do processo e as questões de direitos autorais logo levantaram suspeitas. A prática não é uma curadoria literária, mas uma mineração de texto em massa, onde o valor do livro como objeto é reduzido a zero após a extração de seu conteúdo.
A fábrica de dados
O fluxo de trabalho descrito pelo funcionário é mais industrial do que bibliotecário. Caixas e paletes de livros chegam de diversas fontes — incluindo liquidações de bibliotecas e remessas internacionais, como da Universidade de Londres. Há obras novas, ainda lacradas, e documentos que parecem ser oficiais, como relatórios apresentados ao Parlamento britânico. A variedade é vasta, com textos em alemão, russo e grandes lotes de livros em japonês.
Após uma triagem para remover duplicatas, os livros seguem para estações onde operadores utilizam máquinas para fatiar as lombadas. As folhas soltas são então alimentadas em cerca de 20 a 25 scanners de alta velocidade, que, segundo a testemunha, “parecem máquinas que contam dinheiro”. Nas telas, o conteúdo do livro passa rapidamente, sendo convertido em dados. O passo final é o descarte. As páginas escaneadas são simplesmente jogadas em contêineres, sem qualquer possibilidade de remontar a obra original.
O custo do conhecimento
“Eu gostaria de poder levar esses livros”, lamenta o funcionário, capturando a tensão central da operação. De um lado, a busca pragmática por um volume massivo de dados para avançar uma fronteira tecnológica. Do outro, a destruição de artefatos culturais, conhecimento acumulado e, potencialmente, obras raras. A reportagem confirma que a Amazon adquire livros de vendedores, incluindo alguns raros, para esse fim. A destruição física significa que “a quantidade de cópias disponíveis para outras pessoas” é permanentemente reduzida.
Este processo joga luz sobre a cadeia de suprimentos, muitas vezes invisível, da inteligência artificial. Enquanto o debate público se concentra em algoritmos, vieses e o poder computacional, a matéria-prima — os dados — tem uma origem física e logística complexa. A operação em Las Vegas demonstra que a aquisição desses dados não é um ato etéreo. Envolve galpões, trabalho manual e decisões sobre o que preservar e o que destruir, levantando questões éticas que vão além da simples violação de copyright.
O galpão VGT3 não é apenas uma nota de rodapé logística; é uma metáfora para a forma como a indústria de tecnologia consome o passado para construir o futuro. A questão que fica não é apenas sobre a legalidade da digitalização, mas sobre o valor que se atribui ao objeto físico em uma era de dados efêmeros. O que se perde, afinal, quando um livro deixa de ser um artefato para se tornar apenas mais um fluxo de texto a ser processado?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · 404 Media





