Um alerta vindo da Espanha acende uma luz amarela sobre os custos ocultos da transição energética. O Foro Industria y Energía, uma organização que representa grandes consumidores de energia, manifestou preocupação com o uso recorrente de um mecanismo que força a parada da produção industrial para garantir a estabilidade do sistema elétrico. Segundo reportagem da Forbes Espanha, o operador da rede espanhola ativou o serviço seis vezes em menos de dois meses, um ritmo inédito.

O mecanismo em questão, chamado Serviço de Resposta Ativa da Demanda (SRAD), é voluntário e remunerado: indústrias se comprometem a reduzir seu consumo em troca de compensação financeira quando há risco de desequilíbrio entre geração e demanda. A frequência das ativações, no entanto, sugere que a ferramenta está deixando de ser um recurso de emergência para se tornar um pilar operacional — transformando, nas palavras do Foro, a indústria no “fusível por defeito” do sistema.

O custo oculto da interrupção

A crítica central é que a compensação financeira não cobre as perdas reais de uma parada abrupta. Setores com alta inércia térmica, como siderurgia, vidro e cerâmica, cujos processos são desenhados para operação contínua, enfrentam custos que vão muito além da energia não consumida. A lista inclui desgaste de equipamentos, consumo extra de energia na retomada das operações, atrasos logísticos e potenciais penalidades comerciais. O preço de um megawatt-hora interrompido, argumenta o setor, quase nunca equivale ao valor de um megawatt-hora simplesmente deixado de consumir.

A questão expõe uma tensão fundamental: a indústria reconhece a necessidade de flexibilidade na demanda para integrar fontes renováveis intermitentes, mas rejeita a ideia de que essa flexibilidade deva recair desproporcionalmente sobre a capacidade produtiva. O alerta é para que a solução paliativa não mascare a falta de investimentos estruturais mais urgentes.

Flexibilidade não é fragilidade

Para o setor industrial espanhol, a resposta não está em desligar fábricas, mas em construir um sistema elétrico mais robusto. A organização defende o reforço das redes de transmissão, o aumento da capacidade de armazenamento de energia — para deslocar a geração no tempo —, a construção de novas interconexões e a manutenção de reservas de geração gerenciável adequadamente dimensionadas. A visão é que a flexibilidade da demanda deve ser uma ferramenta entre várias, e não a principal.

A experiência espanhola serve como um estudo de caso sobre os desafios da descarbonização. A integração massiva de fontes eólica e solar exige uma rede mais inteligente e resiliente. Quando os investimentos em infraestrutura não acompanham o ritmo da transição, o custo acaba sendo transferido para a ponta, comprometendo a competitividade industrial.

O debate aberto na Espanha ecoa em outras geografias que aceleram suas matrizes renováveis, incluindo o Brasil. A lição que emerge é que a transição energética bem-sucedida depende tanto da capacidade de gerar energia limpa quanto da robustez da infraestrutura para gerenciá-la, sem forçar um dilema entre sustentabilidade e produção industrial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España