A artista Alison Nguyen irá estrear em setembro seu novo filme, "Prior Occupants", em um dos espaços públicos mais celebrados de Nova York, a High Line. A obra é a mais recente comissão da série High Line Originals, produzida em parceria com o Chanel Culture Fund, o braço de mecenato da marca de luxo.

O ponto de inflexão, no entanto, não está no parque em si, mas para onde a câmera de Nguyen aponta: o vizinho Westbeth Artist Housing. A escolha subverte a narrativa convencional do local, trocando a celebração do presente pela escavação de um passado complexo, que vai da inovação tecnológica à pesquisa para a bomba atômica.

Do Bell Labs ao ateliê

Antes de se tornar um refúgio para artistas, o Westbeth foi um complexo da Bell Laboratories. No local, foram desenvolvidas tecnologias como o cinema falado e a televisão. Contudo, a história tem um lado sombrio: parte da pesquisa do Projeto Manhattan, que culminou na criação da bomba atômica, foi conduzida ali. O filme de Nguyen explora essa dualidade, investigando como os vestígios desse passado industrial continuam a moldar o bairro.

A transformação do espaço em 1970, quando foi convertido em moradia acessível para artistas — abrigando nomes como Diane Arbus e Robert De Niro Sr. —, cria uma tensão narrativa. O filme utiliza materiais de arquivo, entrevistas com residentes e performances coreografadas para dar corpo a essa memória estratificada.

O mecenato como arqueologia

O comissionamento de uma artista como Nguyen, conhecida por sua abordagem que mescla documentário e ficção especulativa, é sintomático da estratégia cultural da Chanel e da High Line. O projeto se posiciona não como mero entretenimento, mas como uma forma de arqueologia urbana, financiada por uma marca que busca se associar a uma produção cultural mais crítica.

Ao invés de focar na estética do parque, o filme questiona as narrativas que os espaços públicos contam — e, mais importante, as que eles omitem. A leitura aqui é que a obra de Nguyen sugere que a história mais relevante pode não estar no monumento, mas na estrutura anônima ao lado, cuja memória foi ofuscada pelo sucesso de seu vizinho.

Após a exibição em Nova York, "Prior Occupants" viajará para Londres, ampliando seu alcance. O projeto serve como um lembrete de que as cidades são palimpsestos, onde histórias de inovação, arte e destruição coexistem, muitas vezes em silêncio, esperando que uma nova lente as traga à luz.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews