Uma nova exposição na Dulwich Picture Gallery, em Londres, propõe uma releitura da fotografia urbana americana, reunindo imagens icônicas de nomes como Alfred Stieglitz, Walker Evans, Diane Arbus e Bruce Davidson. Intitulada “Portrait of a City: A Century of American Photography”, a mostra é construída a partir do acervo do The Savings Bank DNB e argumenta que a identidade visual da América foi, em grande parte, moldada por olhares externos.
O ponto de partida, segundo o curador Alexander Moore, é a ideia dos Estados Unidos como um “grande caldeirão de influências e ideias”. Muitos dos fotógrafos em destaque não eram americanos de nascimento, mas imigrantes que analisavam o país como outsiders. Essa perspectiva externa, argumenta a curadoria, permitiu a captura de tensões e contradições que um olhar nativo talvez não percebesse, criando um retrato multifacetado e frequentemente crítico do chamado “sonho americano”.
Nova York, múltiplos olhares
Inevitavelmente, Nova York ocupa o centro do palco. A cidade é apresentada não como um monolito, mas como um mosaico de visões conflitantes. De um lado, a dupla exposição do Empire State Building por Edward Steichen, que ajudou a cimentar a imagem de Nova York como uma metrópole de sonhos e arranha-céus. Do outro, as imagens de Weegee, um imigrante ucraniano que cresceu na pobreza e documentou o lado sombrio e violento da cidade.
Entre esses dois extremos, a obra de Lewis Hine captura o esforço humano monumental por trás da paisagem urbana glamourosa, com seus registros dos operários construindo os edifícios icônicos. A fotografia socialmente engajada de Hine tornou-se um modelo para a Photo League, um coletivo progressista que acreditava no poder da imagem para gerar mudança. Fotógrafos associados ao grupo, como Helen Levitt, Aaron Siskind e Ruth Orkin, também presentes na mostra, focaram em bairros específicos como o Lower East Side e o Harlem, oferecendo uma visão de dentro para fora.
Do sonho à realidade crua
Para além de Nova York, a exposição confronta o espectador com outras realidades do sonho americano. A fotografia de Mary Ellen Mark, “The Damm Family in Their Car” (1987), retrata uma família desabrigada vivendo dentro de um carro em Los Angeles. O automóvel, símbolo de modernidade e liberdade, torna-se aqui um emblema de precariedade. Em outra ponta, uma imagem de Elaine Mayes de 1968 documenta o idealismo hippie em São Francisco, mas revela a vulnerabilidade de jovens atraídos pela promessa do “Verão do Amor”.
A sala final, dedicada à série “Subway” de Bruce Davidson, dos anos 1980, é um clímax narrativo. As imagens, com os vagões de metrô pichados e os passageiros desconfiados, capturam uma Nova York que parecia à beira do colapso. A montagem densa das fotografias na parede busca recriar a sensação de claustrofobia e sobrecarga sensorial do transporte público. Há tensão, mas também lampejos de solidariedade, como em uma foto que mostra passageiros ajudando alguém que prendeu o braço na porta.
O curador aponta para a conexão visual entre a imagem final do metrô lotado e a primeira da exposição, “The Steerage” (1907), de Stieglitz, que retrata um navio apinhado de gente. A justaposição sugere que, embora a cidade americana tenha se transformado imensamente em um século, a densidade humana, com suas fricções e complexidades, permanece uma constante.
Com reportagem de Brazil Valley





