Em um artigo de opinião na Fortune, uma advogada que se tornou consultora narra como uma palavra havaiana — 'puka', que significa buraco ou lacuna — definiu sua trajetória profissional. O termo, gritado por seu treinador de vôlei para apontar um espaço vazio na quadra, tornou-se um reflexo: ver a lacuna, mover-se para preenchê-la. A autora argumenta que essa capacidade de entrar em qualquer situação, identificar o que está faltando e agir sem ser solicitado é uma das mais poderosas e subestimadas estratégias de carreira.

A tese é que o avanço profissional mais significativo não vem de cumprir tarefas designadas, mas de assumir a responsabilidade por problemas órfãos. Essa 'mentalidade puka' é o que distingue profissionais proativos de executores reativos e, em escala, o que separa empresas adaptáveis das estagnadas. Não se trata de heroísmo, mas de uma percepção aguçada sobre onde o valor real pode ser criado: nos espaços entre as responsabilidades formais.

A anatomia da iniciativa

A autora ilustra o conceito com uma história do início de sua carreira. Como a advogada mais júnior de um escritório, sem lugar em uma equipe de um grande caso, ela se deparou com uma pilha de prontuários médicos desorganizados que ninguém queria gerenciar. Ela assumiu a tarefa. Organizou tudo em fichários codificados por cores, decifrou abreviações e apresentou o material de forma útil ao sócio responsável. Este foi o primeiro 'puka'. Ao preenchê-lo, ela não apenas ganhou um lugar na equipe, mas iniciou uma sequência de promoções que a levou a uma das maiores firmas de advocacia do mundo.

O movimento sugere que a iniciativa em resolver problemas não glamorosos é um ativo de alto valor. A pessoa que consistentemente preenche as lacunas torna-se indispensável. Ela não espera por um novo cargo para assumir mais responsabilidades; ela começa a exercê-las, e a organização eventualmente se adapta para formalizar seu novo papel. É uma forma orgânica de crescimento de carreira, impulsionada pela entrega de valor em vez da busca por títulos.

A nova fronteira: IA e o 'puka' digital

Hoje, talvez a maior lacuna nas corporações seja a integração prática da inteligência artificial. Enquanto conselhos debatem estratégias de alto nível, as ferramentas de IA permanecem subutilizadas no dia a dia operacional. O 'puka' não é a falta de acesso à tecnologia, mas a falta de aplicação para resolver problemas concretos. A autora traça um paralelo direto com sua experiência: os prontuários médicos não eram um segredo, mas a informação precisava de forma e organização para ser útil.

O ponto central é que a IA colapsou o custo de preencher muitas dessas lacunas. O trabalho de organizar dados, analisar contratos ou consolidar informações espalhadas por e-mails — tarefas que antes exigiam semanas — agora pode ser feito em horas. A oportunidade não está em debater o que a IA irá substituir, mas em usá-la para viabilizar o que antes era impraticável. O profissional que usa uma ferramenta de IA para criar um tracker que ninguém pediu, ou para analisar dados que ninguém teve tempo de ler, está aplicando a mentalidade 'puka' à era digital.

O valor de identificar a lacuna não diminuiu; pelo contrário, tornou-se ainda mais crucial. O desafio para líderes é duplo: desenvolver o hábito de enxergar esses espaços e criar uma cultura que recompense a iniciativa de preenchê-los, em vez de tratá-la como um risco. A questão fundamental permanece a mesma, com ou sem tecnologia: quando um problema não resolvido está à vista de todos, quem se move primeiro?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune