A última vez que me senti genuinamente enganado foi em uma sala escura, com o aroma característico de pipoca no ar e a promessa de uma aventura épica. A sessão das 19h15, anunciada nos ingressos e na programação, começou, na verdade, às 19h45. Os minutos que antecederam o início do filme foram preenchidos por uma sucessão de anúncios publicitários e trailers, culminando em uma propaganda da própria rede de cinemas, como se eu já não estivesse ali, imerso em sua experiência. Essa não foi uma falha isolada, mas um padrão que se repete em diversas salas, transformando o que deveria ser um momento de lazer em um teste de resistência e paciência. A sensação é de desrespeito, de que o tempo do espectador é secundário diante de interesses comerciais que não são comunicados com transparência.
O contrato implícito de confiança
Quando compramos um ingresso para o cinema, estabelecemos um contrato implícito de confiança com o exibidor. Esperamos que a programação seja cumprida, que o filme comece no horário anunciado e que a experiência corresponda ao que foi prometido. No entanto, a prática generalizada de exibir cerca de 20 minutos de publicidade e trailers antes do início do filme principal subverte essa expectativa. Essa ausência de honestidade sobre o tempo real de início da exibição cria uma dinâmica de desconfiança. O espectador é forçado a adivinhar o momento certo de chegar, transformando a ida ao cinema em um jogo de adivinhação, onde o erro significa perder os primeiros minutos do filme ou, alternativamente, suportar uma quantidade excessiva de propaganda.
A economia da paciência e o desprezo pelo tempo
A economia por trás dessa prática é clara: maximizar a receita publicitária. As salas de cinema se tornaram, em muitos aspectos, plataformas de mídia, vendendo o tempo do espectador para anunciantes. Contudo, o problema reside na forma como essa transição tem sido gerida. Em vez de uma comunicação transparente sobre a duração total da sessão, incluindo os intervalos publicitários, as redes optam por uma omissão que beira a má-fé. Essa estratégia, embora lucrativa no curto prazo, erode a relação de confiança com o público e pode, a longo prazo, afastar os espectadores que valorizam seu tempo e buscam uma experiência mais direta e honesta com a arte cinematográfica.
Repensando a experiência do espectador
Talvez a solução não seja apenas exigir mais transparência, mas repensar a própria experiência cinematográfica. Se as salas de cinema precisam desses longos intervalos publicitários para se sustentarem financeiramente, por que não criar uma comunicação mais clara? Anunciar o "horário de início da publicidade" e o "horário de início do filme" seria um primeiro passo. Ou, quem sabe, explorar modelos alternativos que valorizem o tempo do espectador, como sessões com menos ou nenhuma publicidade, talvez com um custo ligeiramente superior, que seria justificado pela conveniência e honestidade. A questão fundamental é: o que a indústria cinematográfica está disposta a fazer para reconquistar e manter a confiança do seu público?
O cinema, em sua essência, é uma forma de arte que nos transporta para outros mundos, nos faz refletir e sentir. Essa magia, no entanto, pode ser facilmente dissipada pela frustração de se sentir enganado antes mesmo que as luzes se apaguem. A conveniência e a honestidade na comunicação do tempo são, afinal, elementos cruciais para que a experiência de ir ao cinema continue a ser um ritual apreciado e não uma batalha contra o relógio e a publicidade incessante.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Guardian UK Business





