A identidade do Canva, a plataforma de design que se tornou onipresente em apresentações corporativas e posts de redes sociais, está em plena transformação. Em uma rara reflexão sobre a estratégia da companhia, o cofundador e CPO Cameron Adams declarou que o Canva agora se vê como “uma empresa de IA que faz design”, e não o contrário. A inversão da frase não é semântica; é um manifesto.

Segundo Adams, em entrevista ao podcast Rapid Response, da Fast Company, essa mudança de eixo explica por que o chamado “SaaSpocalypse” — a tese de que a IA generativa aniquilaria o modelo de software como serviço — nunca foi uma preocupação real para a empresa. Em vez de esperar o impacto, o Canva decidiu se tornar o próprio agente da disrupção, reimaginando sua operação de dentro para fora, numa velocidade que Adams compara a “correr uma maratona em ritmo de sprint”.

A cultura do bote salva-vidas

Para uma empresa com cerca de 6 mil funcionários, a agilidade é um desafio monumental. A metáfora de Adams para a transformação é clara: abandonar a mentalidade de “mover o Titanic” para operar como “um conjunto de botes velozes”. Na prática, isso se traduz em uma nova cadência de desenvolvimento de produto, com entregas de valor ao cliente em ciclos semanais, algo que remete às raízes de startup da companhia.

Essa velocidade só é possível com uma mudança cultural profunda. Adams revelou duas diretrizes que sustentam a nova fase. A primeira é a autonomia das equipes para usar as ferramentas de IA que julgarem melhores — seja Claude, ChatGPT ou Gemini —, com orçamento para experimentação. A segunda é a alocação de tempo para essa exploração. A liderança entende que, sem um mandato explícito para testar o novo, as equipes naturalmente recorrem a processos e ferramentas já conhecidos, matando a inovação.

Propriedade intelectual e o usuário

O movimento do Canva não se resume a integrar APIs de terceiros. Adams enfatiza que a empresa está investindo pesadamente em pesquisa e desenvolvimento para criar sua “mistura única de IA” e propriedade intelectual. A estratégia é criar uma barreira de entrada e evitar se tornar apenas uma interface bonita sobre modelos de linguagem de outros. É uma aposta em diferenciação técnica, não apenas em experiência de uso.

O risco dessa aceleração é alienar uma base de usuários que busca estabilidade. A solução encontrada foi um sistema de duas velocidades: internamente, a equipe do Canva testa novas funcionalidades diariamente. Para o público, as mudanças são implementadas de forma mais gradual e cuidadosa. É um equilíbrio delicado entre a vanguarda tecnológica e a usabilidade cotidiana, gerenciado longe do Vale do Silício, a partir da sede da empresa em Sydney.

A jornada do Canva oferece um roteiro para incumbentes que buscam se adaptar à era da IA. A lição parece ser que a sobrevivência não está em proteger o legado, mas em fomentar um estado de caos controlado internamente para continuar a entregar simplicidade e valor externamente. A distância geográfica do epicentro tech talvez seja, no fim, uma vantagem estratégica, permitindo uma evolução com menos ruído e mais foco no próprio produto.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company