O obituário da vida noturna parece ser escrito em tempo real. No Reino Unido, mais da metade das boates desapareceu entre 2013 e 2024; se a tendência continuar, não haverá nenhuma até 2030. A França perdeu 70% de seus clubes desde os anos 80, e a Itália, mais da metade desde 1990. Nos Estados Unidos, o número de bares gays caiu quase pela metade na última década. Os dados pintam um quadro de apocalipse para um setor que já foi o epicentro da vanguarda cultural e social.

Contudo, um mergulho na longa história do ato de “sair à noite”, como propõe a escritora Imogen Willetts em seu novo livro Up All Night, revela uma perspectiva diferente. Segundo um trecho publicado pelo portal Lit Hub, o que assistimos não é um fim, mas uma transição. A vida noturna, em sua essência, é uma forma de “rebelião organizada” que concede acesso a experiências transgressoras. Essa força motriz não está desaparecendo; está, como sempre fez ao longo da história, apenas se adaptando a novas condições sociais e tecnológicas.

Das fogueiras à transgressão comercial

A necessidade de se reunir após o anoitecer é ancestral. A teoria antropológica aponta para as fogueiras pré-históricas como o primeiro palco noturno, onde a linguagem e a imaginação se desenvolveram. O sociólogo Émile Durkheim, em 1912, deu um nome à euforia sentida em rituais, shows ou pistas de dança: “efervescência coletiva”, a sensação de ser parte de algo maior que si mesmo. Essa busca por êxtase comunal é o motor fundamental por trás de milênios de encontros noturnos, dos rituais de caça aos festivais de música eletrônica.

No entanto, a noite nem sempre foi sinônimo de festa. Em Roma, as tavernas eram antros de perigo. Na Europa do século XVI, o fervor religioso e a crença de que a noite pertencia ao diabo impuseram toques de recolher e transformaram qualquer saída em um ato de bravura. Segundo a análise de Willetts, a vida noturna como a entendemos — um ambiente comercial e secular desenhado para oferecer prazeres diversos — é um fenômeno mais recente. A autora argumenta que seu marco zero se deu não na Europa, mas no Japão do século XVII, em distritos de entretenimento que ofereciam uma variedade de deleites, da comida ao teatro, de forma organizada e laica.

A reinvenção como regra

A história da vida noturna é uma crônica de adaptações. A ascensão da televisão nos anos 50, que muitos previram que mataria a necessidade de sair de casa, apenas segmentou o público: a noite passou a ser um território da juventude, associado à liberdade sexual e ao flerte. A música gravada e o vinil não acabaram com a música ao vivo; eles criaram a discoteca e a figura do DJ, reinventando o formato dos salões de dança. Da mesma forma, a cultura rave nos anos 90 reapropriou espaços industriais abandonados com uma energia anárquica, respondendo a um contexto de declínio econômico.

Hoje, os desafios são outros: o entretenimento infinito do streaming, os aplicativos de relacionamento que digitalizaram a paquera e uma cultura que parece valorizar mais o bem-estar do que o hedonismo. O resultado é uma certa nostalgia irônica, onde museus e instituições culturais celebram clubes que, em seu auge, eram vistos como espaços marginais. A análise aqui é que a cultura mainstream só se sente segura para celebrar a transgressão quando ela já está morta e empalhada. Mas a energia que alimentava esses lugares não se extinguiu. Ela apenas escoa para novas formas, como o Margate Arts Club no Reino Unido — um espaço cultural íntimo, inclusivo e com estética “faça você mesmo”, que prioriza a comunidade em vez da escala.

O declínio do mega-clube e do bar de bairro talvez não seja o fim da noite, mas o fim de um modelo específico de negócio. A busca por “efervescência coletiva” persiste, agora em formatos que podem ser menores em escala, mas talvez mais potentes em seu senso de pertencimento. A questão que fica não é se as pessoas continuarão a se reunir, mas onde e como a próxima forma de rebelião organizada se manifestará.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub