Há 66 milhões de anos, um objeto com cerca de 15 quilômetros de diâmetro colidiu com a Terra, pondo fim ao reinado dos dinossauros e eliminando três quartos de toda a vida no planeta. O culpado deixou sua marca: a cratera de Chicxulub, na Península de Yucatán, no México. Agora, uma equipe internacional de cientistas acredita ter identificado com mais precisão a natureza desse objeto. Segundo um estudo publicado na revista Science Advances, o responsável pelo apocalipse foi um tipo raro de meteorito conhecido como condrita carbonácea.
A conclusão não é um mero detalhe para paleontólogos. Ela foi alcançada através de uma sofisticada análise forense geoquímica, que examinou a "assinatura" química deixada pelo impacto. Ao estudar isótopos de níquel em amostras de argila coletadas em todo o mundo na camada geológica que marca o evento, os pesquisadores conseguiram traçar um perfil preciso do material que se vaporizou na colisão. Este perfil funciona como um RG cósmico, permitindo identificar a origem do impactador.
A assinatura do níquel
Quando o asteroide atingiu a Terra, ele se desintegrou, espalhando uma fina camada de poeira por toda a atmosfera. Essa poeira assentou e se preservou no registro geológico como a fronteira K-Pg (Cretáceo-Paleogeno). É nessa camada que os cientistas, liderados por pesquisadores do Institut de Physique du Globe, encontraram as pistas decisivas. Ao medir com alta precisão a composição isotópica do níquel, um elemento presente em meteoritos, eles puderam comparar os resultados com um vasto catálogo de rochas espaciais já conhecidas.
O cruzamento de dados apontou para uma correspondência específica: uma condrita carbonácea da classe Ornans (CO). Este é um tipo de meteorito excepcionalmente raro, representando uma fração minúscula do material que chega à Terra. Considerados objetos primitivos, remanescentes da formação do sistema solar, eles se originam em suas regiões mais externas, como o cinturão de asteroides exterior ou o ainda mais distante Cinturão de Kuiper. A descoberta sugere que o carrasco dos dinossauros veio de uma vizinhança cósmica pouco explorada.
Implicações para a extinção e o futuro
Essa nova identidade tem implicações diretas para a compreensão do próprio evento de extinção. Segundo Philippe Claeys, um dos pesquisadores envolvidos no estudo, as condritas do tipo CO contêm menos elementos voláteis, como o enxofre, do que outras classes de meteoritos. A leitura aqui é que o enxofre liberado pelo próprio impactador pode ter tido um papel menor no "inverno nuclear" que se seguiu do que se imaginava. O principal gatilho da catástrofe climática teria sido, portanto, a colossal quantidade de poeira e rocha pulverizada da própria crosta terrestre, lançada na estratosfera e bloqueando a luz solar por anos.
Olhando para o futuro, decifrar a origem e a composição do impactador de Chicxulub é uma peça fundamental no quebra-cabeça da defesa planetária. Saber que um objeto tão devastador pode vir de uma região específica e ser de um tipo tão raro ajuda a refinar os modelos de risco. A pesquisa informa onde os astrônomos devem concentrar seus esforços de vigilância e que tipo de composição devem esperar de potenciais ameaças. O estudo do passado, neste caso, é um investimento direto na segurança do futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · El Confidencial — Tech





