Em meio a tensões geopolíticas e um cenário econômico turvo, a ansiedade se tornou um fator de produção. Um estudo recente da consultoria Burson, detalhado pela Fortune, revela um paradoxo: metade da força de trabalho americana afirma que a ansiedade sobre o estado do mundo prejudica seu foco, mas 57% dizem que o mesmo sentimento os motiva a trabalhar mais.
Essa explosão de produtividade, no entanto, é um falso positivo. O que parece ser engajamento é, na verdade, um precursor de custos elevados com rotatividade e perda de reputação. A leitura é que as empresas estão obtendo ganhos operacionais de curto prazo em troca de perdas estratégicas de longo prazo, um pacto insustentável que líderes e gestores precisam decifrar antes que seja tarde.
O custo oculto do medo
A produtividade movida pela ansiedade é uma faca de dois gumes. O estudo aponta que 34% dos funcionários ansiosos sentem sua lealdade ao empregador minada, e 53% considerariam seriamente uma nova posição com salário comparável. A lógica é perversa: equipes motivadas pelo medo podem até superar metas, mas buscarão a primeira porta de saída, impondo um custo significativo. Segundo uma pesquisa da Harris Poll, o custo médio de turnover por posição já se aproxima de US$ 45 mil nos EUA.
Esse custo não é apenas financeiro. Ele se manifesta em avaliações negativas em plataformas como Glassdoor, na perda de reputação da marca empregadora e no custo de oportunidade de um ex-colaborador desaconselhar um talento a se juntar à empresa. A gestão baseada no medo, como alertam especialistas, tem vida útil curta. Para mantê-la, é preciso escalar constantemente a ameaça, corroendo a confiança e tornando a operação insustentável.
Geração, economia e a nova ansiedade
As fontes dessa ansiedade são mais pragmáticas do que se imagina. As preocupações que lideram o ranking são econômicas: 36% dos funcionários estão extremamente preocupados em não ganhar o suficiente para acompanhar o custo de vida. O medo de ser demitido ou de ter benefícios reduzidos supera em muito a apreensão sobre o impacto da inteligência artificial.
As diferenças geracionais são gritantes. A Geração Z é a mais afetada (62%), em comparação com Millennials (50%) e a Geração X (45%). Isso sinaliza a falência de pesquisas de engajamento genéricas e a necessidade de segmentar a escuta por idade, tempo de casa e percepção da realidade externa. Líderes precisam de métricas mais sofisticadas para não serem enganados por picos de performance que, na verdade, são um pedido de socorro silencioso.
O cenário macroeconômico não dá sinais de trégua, o que apenas reforça a urgência de os líderes se adaptarem. A questão não é se a ansiedade vai diminuir, mas como as empresas vão construir sistemas para navegar por ela sem quebrar. Afinal, quando se chega à entrevista de desligamento, o diagnóstico é entregue tarde demais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





