Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, voltou a defender um controle de gastos públicos mais severo, criticando abertamente o atual arcabouço fiscal. Durante o 25º Fórum Empresarial Lide, no Rio de Janeiro, Meirelles afirmou que as propostas em discussão para ajustar a regra, como a redução do crescimento real das despesas de 2,5% para 1,5% ao ano, são insuficientes.
Para o arquiteto do antigo teto de gastos, o próximo governo, “seja ele qual for”, precisará de uma política “mais forte” para restaurar a credibilidade fiscal. A leitura é que o modelo atual, ao permitir a expansão contínua da despesa acima da inflação, perpetua um desequilíbrio estrutural que pressiona a dívida pública e mantém os juros em patamares elevados.
O fantasma da austeridade
A crítica de Meirelles é um resgate da lógica que fundamentou o teto de gastos, implementado em 2016. Aquele mecanismo proibia qualquer crescimento real da despesa federal, limitando sua correção à inflação do ano anterior. O objetivo era forçar uma redução do peso do Estado na economia e estabilizar a trajetória da dívida. Embora elogiado pelo mercado financeiro na época, o teto foi alvo de duras críticas por seu impacto sobre investimentos e áreas sociais.
O arcabouço fiscal do governo Lula foi desenhado justamente como uma alternativa, buscando conciliar responsabilidade fiscal com a possibilidade de expansão dos gastos. Ao defender o retorno a um princípio de crescimento real zero, Meirelles essencialmente decreta o fracasso desse meio-termo. Sua tese é que, sem uma âncora rígida, a política fiscal continuará expansionista, trabalhando em direção oposta à política monetária contracionista do Banco Central.
Fiscal e monetário em colisão
Este é o ponto central do diagnóstico de Meirelles: o país vive com uma política fiscal que estimula a economia e uma política monetária que tenta freá-la para controlar a inflação. O resultado, segundo ele, é a necessidade de juros mais altos por mais tempo, inibindo o investimento privado e o crescimento sustentado. A solução passaria por alinhar os dois vetores, com o lado fiscal promovendo o ajuste necessário para que o Banco Central possa reduzir a Selic.
As declarações de Meirelles, que afirmou estar disposto a aconselhar candidatos mas sem planos de voltar ao Executivo, jogam luz sobre o principal debate econômico para a eleição de 2026. A sustentabilidade das contas públicas e o modelo de controle de gastos serão temas incontornáveis. A questão que se impõe é se o próximo governo optará por um ajuste no arcabouço existente ou se o receituário mais austero, agora reembalado por seu principal autor, voltará a ganhar tração.
O debate está longe de uma conclusão. A defesa de Meirelles por um remédio conhecido, mas politicamente amargo, garante que a discussão sobre o tamanho do Estado e a trajetória da dívida permanecerá no centro da agenda nacional, desafiando os projetos políticos que disputarão o comando do país em 2027.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





