O Banco do Brasil colocou um freio em uma de suas linhas de crédito para cartão após a inadimplência na carteira mais do que dobrar em um único trimestre. A taxa de atrasos acima de 90 dias saltou de 7,1% em março para 14,6% em junho, forçando o banco a suspender o parcelamento automático de faturas sem pagamento de entrada, um mecanismo que se mostrou problemático.
A decisão, comunicada pela CEO Tarciana Medeiros em conferência com analistas, expõe a tensão entre a busca por crescimento no varejo e a gestão de risco. A medida que impulsionou a deterioração foi uma nova sistemática de parcelamento que, segundo o banco, foi usada de forma recorrente por clientes das classes D e E para rolar dívidas sucessivamente. A leitura do banco é que o problema foi um evento pontual e já está sendo corrigido, mas o mercado financeiro parece menos convencido.
A conta da expansão
A origem do problema está na estratégia. Conforme detalhou o CFO Marco Geovanne Tobias da Silva, o banco buscava expandir sua carteira de pessoa física para compensar a perda de valor no segmento rural. O foco era o crédito consignado, mas a frente de cartões também foi acelerada. A iniciativa, no entanto, abriu uma brecha inesperada. A sistemática de parcelamento automático sem desembolso inicial foi acionada repetidamente por um grupo específico de clientes, inflando o risco de forma silenciosa ao longo do primeiro trimestre.
Quando o alerta soou, o banco travou a linha e reclassificou as operações, o que gerou o salto abrupto — descrito pelo CFO como uma “estilingada” — no indicador de inadimplência do segundo trimestre. O episódio é um caso clássico de como a inovação em produtos de crédito, se não acompanhada por modelos de risco robustos, pode gerar consequências rápidas e severas. A prática de exigir uma entrada para o parcelamento, agora adotada pelo BB, já é padrão entre seus pares privados, o que sugere que o banco estatal subestimou o risco comportamental de sua base.
Um problema pontual?
A liderança do Banco do Brasil insiste que o pior já passou e que a curva de inadimplência começou a se normalizar em julho. A narrativa oficial é a de um ajuste pontual em um produto específico. Contudo, a reação do mercado mostra ceticismo. O JPMorgan, em relatório, classificou o desempenho dos cartões como o “destaque negativo” do trimestre, apontando que a alta de 750 pontos-base surpreendeu até as expectativas mais pessimistas. A análise do banco americano indica que a formação de nova inadimplência superou as provisões brutas, reduzindo o índice de cobertura do banco.
O Itaú BBA descreveu o resultado como “de menor qualidade”, apesar de o lucro ter vindo acima do esperado. O pano de fundo mais amplo, que inclui o alto endividamento das famílias e programas de renegociação como o Desenrola, torna mais difícil isolar o episódio como um erro meramente operacional. A questão que fica para o mercado não é apenas se o problema no cartão foi resolvido, mas se a governança de risco do banco está calibrada para a velocidade e a complexidade do crédito de varejo moderno.
Enquanto a gestão do BB admite que o lucro anual deve ficar na ponta baixa da projeção, a tarefa imediata é dupla: conter os danos na carteira de cartões e, mais importante, reconstruir a confiança na sua capacidade de expandir o crédito de varejo sem novas surpresas. O episódio serve como uma lição sobre a linha tênue que separa a democratização do crédito de uma expansão insustentável.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





