Um plano confidencial da FIFA para remodelar suas finanças vazou, expondo uma estratégia agressiva que gerou uma crise imediata na cúpula do futebol mundial. Segundo reportagem do Hypebeast, um documento de 25 páginas detalha a proposta de vender 20% de uma nova entidade comercial, batizada de "FIFA Forward Enterprise", para o investidor americano Joshua Kushner. Para garantir a adesão de suas 211 federações-membro, a entidade ofereceu um pagamento inicial de US$ 20 milhões a cada uma.

A tese por trás da proposta é que o futebol global, apesar de sua popularidade, está submonetizado em comparação com ligas americanas como a NFL. O plano, elaborado pelo mesmo banco que assessorou a fracassada Superliga Europeia, busca destravar esse valor percebido. Contudo, a reação das principais confederações foi de repulsa, sinalizando uma profunda divisão entre a visão comercial da FIFA e a governança tradicional do esporte.

A lógica do capital contra a lógica do campo

A proposta da FIFA aplica uma cartilha clássica do private equity: identificar um ativo de marca global com monetização ineficiente e aplicar engenharia financeira para extrair mais valor. A criação de uma subsidiária comercial é um movimento padrão para isolar os ativos mais rentáveis e atrair capital externo sem ceder controle direto sobre a entidade-mãe. O problema é que o "ativo" em questão não é uma empresa convencional, mas o calendário do esporte mais popular do planeta.

O ponto mais controverso do plano é a projeção de aumentar o número de eventos globais de 200 para 450 por ano. Essa expansão, necessária para justificar as projeções de receita, ignora as preocupações crescentes com o desgaste físico e mental dos atletas. Críticos também questionam a necessidade de capital externo, dado que a FIFA possui reservas de cerca de US$ 4 bilhões e uma receita de US$ 15 bilhões no ciclo atual. A leitura aqui é que a motivação não é a necessidade, mas uma mudança filosófica: transformar a FIFA de órgão regulador em uma empresa de entretenimento focada no retorno ao investidor.

Um motim e um ponto cego

O ultimato do presidente Gianni Infantino, com prazo até setembro de 2026 para aceitação, teve efeito contrário. A UEFA, entidade que comanda o futebol europeu, rejeitou a proposta por unanimidade e ameaçou um boicote total às competições ligadas ao novo modelo. Pouco depois, a CONCACAF (América do Norte, Central e Caribe) seguiu o mesmo caminho, citando falta de transparência e um prazo artificialmente curto. A rara frente unida entre as duas confederações mais poderosas isolou a cúpula da FIFA.

O que mais alimentou a indignação, no entanto, foi um ponto cego no documento: em 25 páginas detalhando o futuro comercial do futebol, não há uma única menção ao futebol feminino. A omissão contradiz o discurso público da FIFA sobre desenvolvimento e equidade, e expõe o foco da proposta como sendo exclusivamente a extração de mais valor dos torneios masculinos já estabelecidos. Para os críticos, foi a prova final de que o plano trata o esporte como um ativo a ser explorado, e não uma instituição a ser protegida.

A proposta, bem-sucedida ou não, expôs a tensão fundamental no coração do esporte moderno: a disputa entre a visão do futebol como patrimônio cultural e como um produto financeiro. A reação veemente das confederações sugere que, por enquanto, os guardiões do jogo ainda resistem à financeirização total. A questão que permanece é até quando essa barreira se sustentará.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast