A Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu elevar de 20% para 30% a alíquota do Imposto de Importação sobre trens de passageiros. A medida, que entrará em vigor em 120 dias por prazo indeterminado, atende a um pleito da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer), o lobby que representa os fabricantes instalados no país.

A decisão é um movimento clássico de política industrial, utilizando barreiras tarifárias para proteger a produção doméstica. A leitura imediata é que a medida beneficia diretamente players estabelecidos como Alstom, AmstedMaxion e Wabtec. Contudo, o timing da decisão sugere uma complexidade maior, que vai além do simples protecionismo.

Protecionismo sob demanda

A elevação da tarifa é uma vitória para a indústria nacional, que há tempos argumenta sobre a necessidade de um campo de jogo mais equilibrado contra concorrentes estrangeiros. Ao encarecer o produto importado, o governo busca incentivar que operadores de metrô e trens urbanos, como a CPTM em São Paulo ou a SuperVia no Rio, priorizem a compra de material rodante fabricado localmente.

O ponto de inflexão, no entanto, é a chegada da gigante chinesa CRRC, maior fabricante de trens do mundo, que inaugurou em março sua primeira fábrica no Brasil, no interior de São Paulo. A tarifa protege contra a importação de trens prontos, mas não impede a produção local por uma empresa de capital estrangeiro. A estratégia da CRRC de estabelecer uma base fabril no país antecipou, de certa forma, este cenário, transformando a competição de uma disputa de importação para uma de produção local.

O fator chinês

O movimento da Camex pode ser interpretado como uma tentativa de modular o impacto da entrada avassaladora da CRRC no mercado brasileiro. Com escala global e preços agressivos, a empresa chinesa representa um desafio competitivo sem precedentes para os incumbentes. A tarifa, nesse contexto, funciona como um anteparo, dando tempo para que a indústria local se ajuste e, talvez, forçando a CRRC a acelerar seus planos de nacionalização de componentes para se manter competitiva.

A questão que se coloca é se a barreira tarifária será suficiente. A verdadeira disputa agora se dará no chão de fábrica, na eficiência da cadeia de suprimentos e na capacidade de inovação. Para os governos estaduais e concessionárias, o dilema será equilibrar o apoio à indústria nacional com a necessidade de modernizar frotas de forma financeiramente sustentável. A presença local da CRRC garante que a competição continuará acirrada, com ou sem imposto de importação.

A medida, portanto, não é um ponto final, mas o início de um novo capítulo na disputa pelo estratégico mercado ferroviário brasileiro. A questão fundamental que permanece é se a política resultará em uma indústria local mais forte e competitiva ou se apenas elevará os custos de modernização da infraestrutura de transporte, com a conta sendo paga, no fim, pelo usuário e pelo contribuinte.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney