Uma diretriz formal para a polícia do condado de Wapello, em Iowa, nos Estados Unidos, estabelece uma regra de silêncio. O documento, que regula o uso de câmeras de leitura automatizada de placas de veículos (ALPR) da startup Flock Safety, é explícito: “NÃO MENCIONE O USO DE ALPR AOS OCUPANTES DO VEÍCULO” e “NÃO MENCIONE O USO DE ALPR EM SEU RELATÓRIO OU QUEIXA, A MENOS QUE ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO”.

O que poderia ser uma nota de rodapé sobre procedimentos em uma jurisdição rural americana é, na verdade, um sintoma de um fenômeno muito mais amplo: a adoção de tecnologias de vigilância em massa por forças de segurança sob um manto de opacidade. A questão central não é apenas o uso da ferramenta, mas a política deliberada de escondê-la do escrutínio público e judicial, minando a transparência e o devido processo legal.

Ocultação por Padrão

A Flock Safety opera um modelo de “vigilância como serviço”, instalando redes de câmeras que capturam placas de veículos e as cruzam com bancos de dados de carros roubados ou associados a crimes. A eficácia da plataforma reside em sua escala, criando um mapa em tempo real dos deslocamentos de veículos. A política de sigilo de Wapello, no entanto, sugere uma estratégia para evitar que a origem de uma pista investigativa seja questionada em tribunal.

Essa tática não é nova. Conforme aponta a reportagem, ela ecoa a controvérsia em torno dos “IMSI-catchers” (como o popular modelo Stingray), dispositivos que simulam torres de celular para rastrear telefones. Por anos, agências policiais americanas utilizaram a chamada “construção paralela”: após localizar um suspeito com o Stingray, criavam uma justificativa alternativa e plausível para a abordagem, ocultando o método de vigilância original dos advogados de defesa e dos juízes.

A Ilusão da Transparência

O sigilo institucionalizado em torno de ferramentas como as da Flock cria um desequilíbrio fundamental. De um lado, empresas de tecnologia e agências governamentais expandem rapidamente a infraestrutura de vigilância. Do outro, o cidadão e o próprio sistema de Justiça ficam no escuro sobre como as evidências são coletadas, qual a margem de erro dessas tecnologias e qual o potencial para abuso ou vigilância generalizada de pessoas inocentes.

A recomendação para não registrar o uso da tecnologia em relatórios oficiais é particularmente preocupante. Ela impede a formação de uma base de dados que permitiria a legisladores, jornalistas e à sociedade civil avaliar a real efetividade e os custos sociais da ferramenta. Sem dados e sem transparência, o debate público sobre o balanço entre segurança e privacidade torna-se impossível, normalizando um estado de vigilância que opera nas sombras.

O caso de Wapello ilustra que a fronteira da privacidade não está sendo erodida apenas pela tecnologia em si, mas pelas políticas que governam seu uso. Quando a regra é esconder, a ferramenta de investigação se aproxima perigosamente de um instrumento de poder sem controle.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Schneier on Security