O Goldman Sachs acendeu um alerta para os mercados agrícolas: o risco de fortes altas nos preços aumentou, impulsionado pela convergência de três ameaças globais. Em relatório recente, o banco de investimento detalha como as interrupções no Estreito de Hormuz, as novas tensões entre Rússia e Ucrânia no Mar Negro e a provável formação de um super El Niño podem desestabilizar o setor.
A análise, repercutida pelo Money Times, parte de uma premissa preocupante. Embora os estoques globais tenham iniciado 2026 em níveis relativamente confortáveis, a combinação de choques geopolíticos e climáticos em um ambiente comercial fragmentado tornou o mercado mais frágil. A tese é que, no cenário atual, mesmo pequenas interrupções na oferta podem gerar movimentos de preços desproporcionais. O índice à vista de commodities agrícolas da Bloomberg, por exemplo, já acumula alta de 24% no ano, puxado pelo avanço de 41% nos preços do trigo.
A geopolítica como gatilho
Duas das três ameaças têm origem geopolítica. A primeira é a instabilidade no Estreito de Hormuz, uma rota vital por onde passa cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes e 10% das exportações globais de diesel. A escalada de tensões na região eleva os custos de produção agrícola, impactando diretamente insumos essenciais. Para o Brasil, o risco é notável: o país importa cerca de 80% do fosfato que utiliza, e a crise coincide com a janela de compra para a safra de soja, pressionando as margens do produtor.
A segunda ameaça está no Mar Negro, considerado pelo Goldman o corredor de grãos mais importante do mundo. A retomada das hostilidades entre Rússia e Ucrânia coloca em risco entre 15% e 20% do comércio global de grãos. As interrupções já afetam os embarques de trigo, cujos preços subiram aproximadamente 20% desde o início da escalada em julho. O banco alerta que, se as disrupções continuarem até outubro, os efeitos podem se espalhar do trigo para o mercado de milho, agravando o cenário.
O clima e o protecionismo
O fator climático é a terceira peça deste quebra-cabeça. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA) estima em mais de 90% a probabilidade de o El Niño evoluir para uma intensidade muito forte durante o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Um "super El Niño" é um evento raro, que pode causar secas e enchentes severas em diferentes regiões produtoras simultaneamente. O açúcar é um dos mercados mais expostos, com a produção concentrada no Brasil, Índia e Tailândia, áreas sensíveis ao fenômeno. A logística também é afetada, com risco de restrições no Canal do Panamá.
Para o Goldman Sachs, o maior perigo não reside em cada ameaça isoladamente, mas em sua simultaneidade em um contexto de crescente protecionismo. Desde a pandemia, países têm recorrido mais a tarifas, controles de exportação e estoques públicos. O temor de uma quebra de oferta pode levar grandes exportadores a adotar restrições preventivas, como fez a Índia com o arroz em 2023, retirando um volume expressivo do mercado e inflando os preços. Em um mercado fragmentado, a liquidez diminui e a volatilidade aumenta, fazendo com que cada choque, por menor que seja, tenha um impacto amplificado.
O cenário desenhado pelo banco sugere que a estabilidade de preços no agronegócio global está por um fio. A questão não é apenas se haverá um choque de oferta, mas como um sistema interconectado e cada vez mais protecionista irá absorvê-lo. A convergência destes fatores cria uma nova dinâmica onde a previsibilidade é a primeira vítima.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





