O Super El Niño que se aproxima não será um evento climático de impacto uniforme para o agronegócio brasileiro. Pelo contrário, desenha um mapa de riscos assimétricos que deve testar a resiliência de diferentes regiões e culturas na safra 2026/27. A análise consta em um novo relatório da consultoria de riscos Aon, obtido pelo Broadcast Agro, que projeta um cenário de perdas concentradas e ganhos pontuais.
A tese central é que o fenômeno, cujo pico de intensidade é esperado para o último trimestre de 2026, criará uma divisão no campo. De um lado, o Sul do país, altamente exposto a chuvas excessivas. Do outro, o Centro-Oeste, que pode se beneficiar de um regime hídrico mais estável. Para empresas, seguradoras e financiadores, o desafio não é apenas meteorológico, mas estratégico: precificar uma desigualdade climática que afetará balanços e cadeias de suprimento de forma distinta.
O Sul na linha de frente
O trigo desponta como a cultura com o risco mais imediato e agudo. A colheita no Sul, que responde por cerca de 80% da produção nacional, coincide exatamente com o auge do El Niño. O excesso de umidade eleva o risco de germinação pré-colheita e doenças fúngicas, comprometendo o valor comercial do grão. O relatório da Aon recorda que, no super El Niño de 2015/16, o trigo registrou o maior volume de perdas da série histórica do seguro agrícola, com sinistros concentrados no Rio Grande do Sul.
O risco se estende ao milho de primeira safra na mesma região e à cafeicultura do Sudeste. Em Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo, a expectativa é de ondas de calor e chuvas irregulares entre o fim de 2026 e o início de 2027. O estresse térmico e hídrico em fases críticas como a florada pode levar a quebras de safra de 20% a 30%, como já observado em eventos passados.
A dinâmica da compensação
Em contrapartida, a soja, principal commodity agrícola do país, pode viver uma dinâmica de compensação regional. Enquanto as lavouras gaúchas sofrem com o excesso de água, o Centro-Oeste, liderado por Mato Grosso, tende a ter um verão com chuvas mais regulares. Essa estabilidade pode sustentar a produtividade média nacional, mascarando as perdas severas no Sul. A leitura aqui é que a média nacional pode enganar; a análise de risco precisará ser granular.
Já a segunda safra de milho, a "safrinha", que constitui a maior parte da produção, deve escapar dos piores efeitos. Sua fase reprodutiva mais sensível ocorre quando o El Niño já estará em dissipação, a partir de abril de 2027. Ainda assim, o relatório alerta para riscos secundários, como a seca no Norte e Nordeste, que pode afetar a produtividade local e a logística de escoamento de grãos pelo Arco Norte.
O estudo da Aon funciona como um chamado à sofisticação da gestão de risco. Como aponta Beatriz Protásio, CEO de Resseguros da Aon no Brasil, os impactos climáticos já afetam "liquidez, capacidade de financiamento e criação de valor". A questão para o agronegócio brasileiro não é mais se o clima vai mudar, mas como se estruturar para um cenário onde a instabilidade é a nova norma, exigindo uma abordagem que combine inteligência analítica e novas estruturas de capital para proteger os balanços.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times — Mercados





