O mantra “siga sua paixão” tornou-se um dos conselhos de carreira mais repetidos globalmente, ecoando de discursos de formatura a biografias de empreendedores. Contudo, para Bill Burnett e Dave Evans, professores de Stanford e autores do best-seller ‘Designing Your Life’, esta é uma orientação falha e potencialmente danosa. Em uma participação no “Prof G Podcast”, Burnett foi taxativo: “É provavelmente o pior conselho que você pode dar a alguém.”

A tese da dupla, baseada em pesquisas da própria universidade, é que a premissa do conselho é estatisticamente frágil. Apenas uma pequena minoria das pessoas — menos de 20%, segundo um estudo de Stanford citado por eles — possui uma paixão única e claramente identificável. Para os outros 80%, a instrução gera mais angústia do que inspiração, levando a um sentimento de inadequação e paralisia diante da pressão por uma vocação singular.

O mito da vocação única

O problema central, argumentam os professores, é que o conselho transforma o desenvolvimento de carreira em uma caça a um tesouro que, para a maioria, não existe. Ao invés de inspirar, a mensagem pode ser alienante. “Oito em cada dez pessoas pensam: ‘Não sei do que você está falando’”, afirmou Burnett. A pressão por uma epifania profissional ignora a realidade de que os interesses são múltiplos, fluidos e, muitas vezes, descobertos através da prática, não da introspecção.

Em vez de uma busca passional, Burnett e Evans propõem um método ativo, emprestado do design thinking: a prototipagem. A ideia é substituir a busca por uma grande resposta pela execução de pequenos experimentos. O ponto de partida não é a paixão, mas a curiosidade. “Mesmo que você esteja no ponto mais baixo, há algo sobre o qual você é curioso”, diz Burnett. Essa abordagem fragmenta a intimidadora decisão de “o que fazer da vida” em testes gerenciáveis e de baixo risco.

Prototipar a vida, não planejá-la

Prototipar uma carreira significa conversar com profissionais de uma área de interesse, desenvolver um projeto paralelo ou buscar qualquer forma de exposição direta a um tipo de trabalho. É uma forma de coletar dados sobre o que, de fato, engaja e energiza um indivíduo, em vez de apostar tudo em uma ideia abstrata de felicidade profissional. Essa mentalidade também desconstrói a crença de que a graduação define o destino. Para os autores, o curso universitário é “a forma como você organiza a faculdade”, não “a forma como você organiza sua vida”.

Outro ponto fundamental levantado por Evans é a dissociação entre propósito e remuneração. A ideia de que o mesmo trabalho deve, obrigatoriamente, prover sustento financeiro e realização existencial é uma das fontes da pressão contemporânea. “Gerar significado e gerar dinheiro não precisam ser a mesma coisa”, defende. A carreira deixa de ser uma busca por uma resposta definitiva e se torna um processo contínuo de construção.

O framework de Stanford não é um convite à mediocridade, mas uma recalibragem de expectativas. Ele substitui a paralisia da busca pela vocação perfeita pelo movimento da exploração contínua. Em vez de “descobrir” um propósito, a proposta é simplesmente começar a agir — “getting on with it” — e permitir que o caminho se revele na jornada.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider