Em palestra no evento Sauter X, a Country Manager do Google Cloud, Milena Leal, delineou o que considera a próxima grande transformação no modelo de consumo: a transição da busca ativa para a delegação interpretativa. Segundo a executiva, o e-commerce do futuro não dependerá de usuários navegando por múltiplos links de varejistas, mas de agentes de inteligência artificial, como o Gemini, operando como intermediários autônomos. A premissa central é que a tecnologia deixará de ser apenas uma interface de resposta para se tornar uma camada primária de decisão e execução, alterando drasticamente a jornada de compra e a forma como marcas e consumidores interagem no ambiente digital.
O fim da busca linear e o cruzamento de dados
Para ilustrar essa mudança, Leal utilizou o exemplo da compra de um tênis de corrida. No modelo projetado, o usuário informa sua necessidade ao agente, que não apenas processa o pedido, mas cruza a requisição com um vasto histórico de dados pessoais fragmentados. A inteligência artificial seria capaz de identificar uma lesão no joelho a partir de exames médicos previamente carregados no sistema, limitando a busca a calçados com o suporte adequado.
Simultaneamente, o agente acessaria conversas em aplicativos de mensageria, como WhatsApp ou Messenger, para deduzir um orçamento máximo — fixado em mil reais no exemplo —, além de analisar compras anteriores para inferir uma preferência pela cor roxa. Todo esse processo de filtragem ocorre antes mesmo de qualquer produto ser apresentado ao consumidor. O agente sintetiza as restrições físicas, financeiras e estéticas, eliminando a fricção da pesquisa manual e retornando apenas com a opção que atende a todos os critérios para a aprovação final do usuário.
A comunicação entre agentes e a inversão de controle
A execução dessa compra, conforme relatado na palestra, dependerá de uma infraestrutura onde o agente do consumidor se comunica diretamente com os agentes dos varejistas por meio de protocolos específicos, referidos por Leal como "UCP". Nessa dinâmica, a negociação ocorre de máquina para máquina. O agente pessoal busca o produto ideal com base nas características e restrições rigorosas do usuário, e não no que o varejista deseja priorizar em sua vitrine digital.
Essa inversão de controle exige que as empresas passem por uma profunda preparação tecnológica. A executiva ressalta que o varejo precisará não apenas adotar essas novas ferramentas sem medo da disrupção, mas também desenvolver um entendimento muito mais sofisticado de quem é o seu cliente, já que a exposição de produtos será mediada por algoritmos focados exclusivamente na otimização dos interesses do comprador.
Para contexto, a BrazilValley aponta que essa transição descreve o emergente conceito de "Agent-to-Agent commerce" (A2A). Se a previsão se concretizar, o impacto sobre o marketing digital e o e-commerce tradicional será profundo. Toda a infraestrutura atual de SEO, tráfego pago e funis de conversão é desenhada para capturar a atenção humana. Quando a decisão de compra for delegada a um agente que não é suscetível a banners persuasivos, o diferencial competitivo das marcas passará a ser a capacidade de integrar seus inventários aos protocolos desses agentes de forma estruturada e transparente.
Source · @sauter.digital




