A Adif, administradora da infraestrutura ferroviária espanhola, decidiu ignorar a recomendação da Comissão Nacional dos Mercados e da Concorrência (CNMC) para reduzir as taxas cobradas das operadoras Renfe, Iryo e Ouigo no corredor de alta velocidade Madrid-Barcelona. A decisão surge em um momento delicado para o setor, com o tempo de viagem entre as duas cidades aumentando em 25 minutos e uma queda expressiva no número de passageiros, impactando diretamente a receita de todos os operadores.

A Recusa e o Contexto da Queda

A CNMC havia proposto uma redução de 0,42 euros por quilômetro percorrido. Contudo, um estudo da KPMG, encomendado pelas concorrentes Iryo e Ouigo, sugere que a redução deveria ser muito maior, chegando a 2,72 euros por quilômetro. Este valor englobaria o impacto da queda na demanda e nos lucros (1,55 euros), custos de pessoal (0,32 euros) e amortização e financiamento (0,85 euros). A própria CNMC apontou que o corredor Madrid-Barcelona já perdeu mais de um milhão de viajantes no primeiro semestre do ano em comparação com o mesmo período anterior. A previsão é que a queda anual ultrapasse 2 milhões de passageiros em 2026, afetando tanto a estatal Renfe quanto as privadas Iryo e Ouigo.

O Impacto das Limitações de Velocidade

O aumento no tempo de viagem é atribuído às limitações temporárias de velocidade (LTV) impostas nas vias após um acidente em janeiro em Adamuz, Córdoba. Essas limitações também afetaram outras rotas importantes, como Madrid-Sevilha e Madrid-Málaga, que registraram quedas de 15,2% e 44,1% em passageiros, respectivamente. Mesmo linhas menos afetadas pelas LTV, como Valência e Alicante, viram suas contagens de passageiros diminuírem em 5,4% e 4,8%, respectivamente, após o incidente.

Análise das Taxas e Subsídios

Além da questão específica do corredor Madrid-Barcelona, o estudo da KPMG analisou os valores das taxas em outras linhas de alta velocidade, defendendo uma redução generalizada. Para a linha de Málaga, o estudo propõe uma tarifa de 2,71 euros por quilômetro, em contraste com os 4,61 euros defendidos pela CNMC. Para Valência, o valor proposto é de apenas 0,19 euros, contra os 3,09 euros da CNMC, e para Alicante, a proposta é de tarifa zero, em oposição aos 2,98 euros sugeridos pela agência reguladora.

Subsídios Ferroviários na Europa

O relatório também destaca que a Espanha é um dos países europeus que menos subsidia a operação e manutenção de sua rede ferroviária. Em 2024, os subsídios representavam apenas 7% da receita da Adif, embora um novo plano preveja um aumento para 24%. Mesmo assim, o percentual espanhol permanece significativamente abaixo de países como Reino Unido (72%), República Tcheca (67,3%), Áustria (58,6%) e Itália (33,6%). A Adif, ao rejeitar a proposta da CNMC, argumenta que as taxas não são o instrumento adequado para ajustar efeitos extraordinários como o aumento do tempo de viagem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España