A aplicação de agentes de Inteligência Artificial (IA) no ambiente corporativo traz consigo uma promessa de eficiência e automação sem precedentes. No entanto, essa autonomia crescente também gera dilemas complexos, especialmente no que tange à responsabilidade pelas ações executadas pelas máquinas e ao mapeamento preciso dos custos envolvidos. Sem uma governança adequada e uma compreensão clara dos investimentos em supervisão técnica, as organizações correm o risco de operar com vulnerabilidades e de superestimar o retorno sobre o investimento (ROI).

A discussão sobre como gerenciar essa nova força de trabalho digital foi um dos pontos centrais do TI Inside Innovation Forum 2026, onde Alex Chastinet, AI Specialist na Impulso, destacou a necessidade de reestruturar metodologias de gestão. A questão central reside em onde depositar a responsabilidade quando um agente de IA comete um erro ou toma uma decisão com consequências negativas. A visão apresentada é que esses agentes devem ser considerados como atores parte do ambiente de trabalho, o que, por sua vez, demanda a associação de humanos como responsáveis pela sua execução agêntica. "Não há dúvidas de que essas tecnologias vão demandar cada vez mais de humanos para serem associados como responsáveis dessa execução agêntica. Uma pessoa que acompanhe todo o processo", afirmou Chastinet.

Governança e a Necessidade de Supervisão Humana

A complexidade inerente à execução de processos automatizados sem um quadro de governança robusto é um dos principais gargalos. Empresas que falham em contabilizar o tempo e os recursos dedicados por engenheiros e especialistas na supervisão, treinamento e manutenção contínua dos modelos de IA acabam com uma visão distorcida dos ganhos de eficiência financeira. A autonomia, quando desacompanhada de controle, pode levar a ações irreversíveis que comprometem a integridade das operações e a confiança na tecnologia. A integração de agentes de IA como membros da equipe não se trata apenas de delegar tarefas, mas de estabelecer um ciclo contínuo de feedback e validação, onde a supervisão humana atua como um pilar essencial para mitigar riscos e assegurar a conformidade.

A ausência de uma estrutura clara de responsabilidade pode criar um vácuo onde erros são difíceis de atribuir e corrigir. Isso não apenas afeta o desempenho financeiro, mas também a cultura organizacional e a confiança dos clientes. A gestão de agentes de IA requer, portanto, uma abordagem que combine os princípios da gestão de pessoas com a auditoria rigorosa de sistemas automatizados. A ideia é criar um ambiente onde a inovação tecnológica e a responsabilidade humana caminhem juntas, garantindo que os benefícios da IA sejam maximizados sem comprometer a segurança e a integridade das operações.

O Conceito "Know Your Agent" e a Rastreabilidade

Para contornar esses desafios, Chastinet propõe a implementação do conceito "Know Your Agent" (KYA). Essa abordagem foca na atribuição de uma identidade própria e rastreável a cada aplicação de IA. O modelo preconiza o monitoramento detalhado da trajetória percorrida pela máquina, auditando as ferramentas acionadas, as decisões tomadas e o cumprimento das políticas internas da organização. Essa arquitetura visa tornar visível o modo como o agente alcançou um determinado resultado, permitindo uma análise mais profunda e precisa de seu desempenho e de eventuais desvios.

O "Know Your Agent" vai além do simples acompanhamento de métricas de desempenho. Ele busca entender o processo, as interações e os dados que levaram a uma conclusão específica. "O agente tem que ter a sua própria identidade para que opere as demandas que recebeu com mais resultado. Disso surge a demanda necessária do know your agent e formule caminhos de construção desses agentes, focado não apenas no resultado, mas centralizada em uma jornada que torne visível o modo como aquele agente alcançou aquele resultado específico", explicou Chastinet. A existência de ferramentas que permitem esse acompanhamento com grande detalhamento é um indicativo da maturidade crescente nesse campo, facilitando a auditoria e a validação.

Implicações para o ROI e o Futuro do Trabalho

O avanço da maturidade agêntica nas empresas permitirá que as lideranças corporativas acompanhem o desempenho real dos agentes com a mesma rigorosidade aplicada às equipes humanas. A capacidade de alinhar a autonomia tecnológica com a visibilidade de custos e a responsabilidade individual é fundamental para garantir a sustentabilidade das iniciativas de inovação. O valor de negócio de um agente de IA deve ser atrelado ao resultado que ele traz, mas é crucial considerar fatores que muitas vezes ficam nas sombras. "Precisamos considerar o valor de negócio e atrelá-lo ao resultado que o agente está trazendo, mas existem alguns fatores que às vezes podem ficar nas sombras, não identificados, principalmente quando a gente fala do apoio necessário de especialistas, engenheiros, funcionários que vão participar do processo de monitoramento desse agente", ressaltou o especialista.

Se esses custos de apoio e monitoramento não forem devidamente contabilizados, o resultado final pode não apresentar o ganho de eficiência inicialmente estimado. Isso pode levar a decisões de investimento equivocadas e a uma subutilização do potencial da IA. A integração de agentes de IA como membros da equipe, com supervisão e auditoria adequadas, é, portanto, um passo necessário para garantir que a automação gere um ROI real e sustentável, alinhando a promessa tecnológica com a realidade operacional e financeira.

Perguntas em Aberto e a Evolução da Gestão

Ainda persistem perguntas sobre a escalabilidade dessas práticas de governança em larga escala e a formação de profissionais capazes de atuar nessa interface entre humanos e IA. Como as empresas podem desenvolver programas de treinamento eficazes para capacitar seus funcionários a supervisionar e gerenciar agentes de IA? Qual o equilíbrio ideal entre a autonomia da máquina e o controle humano para otimizar tanto a eficiência quanto a segurança?

A evolução do setor dependerá da capacidade das organizações em responder a essas questões, adaptando suas estruturas de gestão e cultura para acomodar essa nova forma de trabalho. A jornada para integrar agentes de IA de maneira eficaz e responsável está apenas começando, e a atenção contínua à governança, à transparência e à responsabilidade será crucial para colher os frutos da revolução da IA.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside