A Inglaterra vive uma crise sanitária e financeira em seu setor de água. De um lado, executivos de 14 companhias receberam um total de £25,3 milhões no último ano. Do outro, consumidores enfrentam contas crescentes e o despejo ilegal de esgoto em praias e lagos, enquanto gigantes como a Thames Water flertam com a insolvência.
O debate, reportado em uma análise do jornal The Guardian, aponta para uma falha estrutural. A privatização, que prometia eficiência, parece ter criado um sistema onde os interesses dos acionistas se sobrepõem aos da população, transformando um serviço essencial em uma máquina de extração de valor.
O sucesso dos acionistas, o fracasso do serviço
Os números ilustram a tese. Entre 1991 e 2019, as empresas de água pagaram £57 bilhões em dividendos aos acionistas de suas controladoras — uma média superior a £2 bilhões por ano. A maior parte dessas controladoras tem capital estrangeiro, o que significa que os lucros nem sequer permanecem na economia britânica.
A leitura aqui é que essa priorização dos dividendos veio às custas do reinvestimento em infraestrutura. O resultado é um sistema degradado, que precisa despejar esgoto para operar e, ao mesmo tempo, onera o consumidor para manter a margem dos investidores. É um ciclo que beneficia o capital, mas penaliza o serviço e o usuário final.
O contraponto escocês
Ao norte da fronteira, a realidade é outra. Na Escócia, o serviço de água e saneamento é gerido pela Scottish Water, uma corporação pública. O que na Inglaterra é visto por alguns como uma "ideia socialista radical" — a reestatização —, na Escócia é tratado como senso comum, aponta a publicação.
O modelo escocês não visa o lucro para acionistas. Qualquer excedente financeiro é reinvestido na modernização e manutenção da rede. Essa diferença fundamental no desenho institucional explica por que os escoceses não enfrentam a mesma combinação tóxica de serviço precário e contas exorbitantes que aflige seus vizinhos.
O desastre inglês serve como um poderoso estudo de caso sobre os riscos da privatização de monopólios naturais. Para o Brasil, que avança com seu próprio marco regulatório para o saneamento, a experiência britânica não é apenas uma notícia distante, mas um alerta sobre os delicados equilíbrios entre investimento privado, regulação e a garantia de um serviço público essencial.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · The Guardian UK Business





