A expansão da inteligência artificial está gerando uma demanda sem precedentes por energia, mas a infraestrutura para suportá-la esbarra num gargalo inesperado: gente. O setor de energia e da rede elétrica dos Estados Unidos precisará de cerca de 500 mil trabalhadores adicionais até 2030 para dar conta do recado, segundo um relatório recente do Goldman Sachs.

O paradoxo é que, enquanto se debate a substituição de empregos de escritório pela IA, a mesma tecnologia cria uma demanda massiva por trabalho técnico que o mercado não consegue suprir. O problema não é a falta de vagas, mas a velocidade com que o capital está sendo investido, muito superior ao tempo necessário para treinar a mão de obra qualificada.

O gargalo humano

As posições em aberto — para construir, cabear, resfriar e proteger a infraestrutura energética — exigem de três a quatro anos de treinamento especializado. A análise do Goldman Sachs aponta que o funil de programas de aprendizagem no setor, que formou 45 mil profissionais em 2024, precisaria de 65 mil novos ingressantes por ano para fechar a conta. O gap entre a necessidade e a oferta de trabalho qualificado está se tornando uma restrição estrutural.

Nesse cenário, a automação física, incluindo robôs humanoides, emerge não como uma ameaça, mas como uma necessidade para fechar a lacuna de produtividade. A projeção do banco de investimento é que o mercado de humanoides salte de 20 mil unidades em 2025 para 1,4 milhão em 2035. A narrativa muda: os robôs não vêm para tomar empregos, mas para executar tarefas para as quais não há trabalhadores suficientes.

A China já ligou os robôs

Embora a imagem de robôs como os da Tesla ou da Boston Dynamics ainda pareça distante da realidade fabril em larga escala nos EUA, a tendência é clara. Empresas chinesas como Unitree e UBTECH avançam, com uma expectativa de ampla implantação comercial entre 2027 e 2029. Barreiras como o financiamento de projetos sem histórico e a complexidade de escalar as operações ainda retardam a adoção no Ocidente.

Enquanto isso, a China já está à frente na corrida. O país asiático já utiliza robôs para realizar a manutenção de linhas de transmissão e a inspeção de usinas de energia. No início deste ano, a State Grid Corporation of China, a estatal de energia, anunciou uma iniciativa de US$ 1 bilhão para implantar cerca de 8.500 robôs com IA para inspeção e manutenção da rede elétrica nacional.

A discussão sobre o futuro do trabalho ganha uma nova camada. A questão deixa de ser apenas se a automação vai eliminar empregos e passa a ser se, em certos setores, ela não será a única forma de viabilizar o crescimento que a própria tecnologia impulsiona. A IA cria um problema que, ironicamente, apenas mais automação parece capaz de resolver.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune