A American Library Association (ALA) divulgou recentemente uma lista compilada de 150 dos livros mais censurados nos Estados Unidos, abrangendo um período de 35 anos, de 1990 a 2024. A iniciativa, lançada em honra à Semana do Livro Banido, lança luz sobre as crescentes pressões em torno da liberdade intelectual e o acesso à informação, especialmente em ambientes educacionais e bibliotecas.

Segundo a ALA, o Escritório de Liberdade Intelectual da organização registrou 4.235 títulos contestados no último ano, o segundo maior total já documentado. Essa escalada na censura, embora não surpreendente em um clima de polarização, revela padrões preocupantes sobre quais tipos de narrativas e temas estão sob ataque. A lista dos 150 títulos mais censurados oferece um panorama detalhado dessas tendências, revelando um foco notável em obras voltadas para jovens adultos, bem como uma crescente preocupação com a diversidade e a exploração de identidades.

Um Panorama da Censura Literária

A lista dos 150 livros mais censurados pela ALA apresenta uma diversidade surpreendente de gêneros e formatos. Entre os títulos mais contestados, destacam-se 20 clássicos adultos, incluindo obras canônicas como "O Sol é Para Todos" de Harper Lee e "Eu Sei Por Que os Pássaros Cantam na Gaiola" de Maya Angelou. Autores frequentemente visados, como J.D. Salinger, Mark Twain, Toni Morrison e Aldous Huxley, continuam a figurar na lista, demonstrando a persistência de debates sobre conteúdo considerado inadequado por grupos conservadores.

O que chama a atenção na compilação é a inclusão de obras contemporâneas aclamadas, como 'Homegoing' de Yaa Gyasi e 'Water for Elephants' de Sara Gruen. A presença desses títulos na lista sugere que as motivações por trás das contestações são por vezes opacas e imprevisíveis, indo além dos temas que são tipicamente alvos de censura.

Novos Formatos, Velhos Medos

A ascensão dos graphic novels como forma de expressão literária também se reflete na lista, com 8 títulos desse gênero entre os mais censurados. A natureza visual e explícita das ilustrações parece incomodar particularmente os censores, talvez por apresentarem corpos e narrativas de forma mais direta do que o texto puro. A lista inclui trabalhos de Alison Bechdel, Gabby Rivera e Craig Thompson, além de uma adaptação em graphic novel de "O Conto da Aia" de Margaret Atwood, que se tornou um alvo duplo de censura.

No universo infantil e juvenil (middle grade), 11 títulos foram frequentemente contestados. Muitos deles, como "Julián é uma Sereia" de Jessica Love, abordam a identidade e a exploração de gênero, enquanto outros, como "E Tango se Junta a Nós" de Justin Richardson, celebram famílias queer. A recorrência de "In the Night Kitchen" de Maurice Sendak, devido a uma breve cena de nudez infantil, evidencia a sensibilidade de certos grupos a representações que fogem do conservadorismo.

O Domínio do Jovem Adulto e a Diversidade

De longe, a categoria mais afetada pela censura são os 81 títulos voltados para o público jovem adulto (YA). A ALA constata que a vasta maioria dos livros contestados desde 1990 foram escritos para audiências mais jovens. Temas como gênero e sexualidade são os principais gatilhos para contestações, superando livros que tratam de violência armada, racismo, saúde mental, drogas, imigração ou até mesmo o "oculto".

Autores específicos se tornaram alvos recorrentes. Ellen Hopkins lidera com 14 livros na lista, seguida por Lauren Myracle, com seis obras contestadas. A presença de ficção histórica, como "Last Night at the Telegraph Club" de Malinda Lo, e de séries mais leves e focadas em temas adolescentes, como "Gossip Girl" de Cecily von Ziegasar, também surpreende, indicando um escrutínio abrangente sobre o que os jovens leem.

Em um nicho emergente, 10 "romantasies" (mistura de romance e fantasia) foram identificados, com Sarah J. Maas liderando o ranking com nove de seus livros. Cassandra Clare também aparece com "Clockwork Princess". A surpresa, para muitos, é a baixa quantidade de memórias (apenas oito), considerando que histórias reais sobre violência sexual, experiências de saída do armário e traumas religiosos poderiam ser vistas como mais ameaçadoras por aqueles que buscam restringir o acesso à informação.

Reflexões e Perguntas em Aberto

A lista da ALA, que também inclui guias de puberdade, um manual antirracista e outros títulos de difícil categorização, sugere que os motivos por trás das contestações muitas vezes carecem de lógica clara. O que fica evidente é que a censura literária nos EUA, embora varie em suas justificativas, mantém um foco persistente em temas que desafiam normas sociais tradicionais, especialmente no que tange à diversidade, identidade de gênero e sexualidade. A batalha pela liberdade intelectual e o acesso irrestrito à informação continua a ser um campo de disputa crucial para bibliotecas e educadores em todo o país.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub