A Ambev (ABEV3) caminha para um segundo trimestre de 2026 marcado por uma recuperação operacional em seu principal mercado, o Brasil. Segundo relatório divulgado pelo Citi, a companhia deve registrar um crescimento de 5,8% nos volumes de Cerveja Brasil, um movimento que sinaliza uma retomada após períodos de pressão. A análise destaca que o desempenho será impulsionado por uma base de comparação mais favorável, especialmente em junho, além do efeito sazonal positivo gerado pela Copa do Mundo de 2026.
Para além do volume, a projeção do banco aponta para um aumento de 5,8% em preços e mix, resultando em um crescimento de 11,9% na receita líquida do segmento. O EBITDA de Cerveja Brasil deve avançar 13,7% na comparação anual, refletindo ganhos de eficiência em despesas administrativas e vendas, que, na visão dos analistas, devem compensar os investimentos elevados em marketing exigidos pelo torneio mundial.
Dinâmicas de eficiência e custos
O otimismo moderado do Citi com a operação brasileira baseia-se na alavancagem operacional e na disciplina comercial da empresa. A expectativa é que a Ambev consiga manter a rentabilidade em ascensão, mesmo com a pressão de custos. O relatório sugere que a tendência de desaceleração dos custos deve se consolidar ao longo do segundo semestre de 2026, oferecendo um alívio necessário para as margens de lucro da companhia em um ambiente de taxas de juros e inflação ainda monitorados pelo mercado.
Contudo, a eficiência interna não ocorre em um vácuo. A empresa tem enfrentado o desafio de equilibrar a execução comercial com um cenário macroeconômico que oferece pouco suporte ao crescimento do consumo de massa. A estratégia de ganho de margem, portanto, depende menos de um aumento explosivo na demanda e mais de uma gestão rigorosa da estrutura de custos e da estratégia de precificação, que se mostra resiliente até o momento.
Desempenho misto nas operações globais
Enquanto o Brasil mostra sinais de vigor, as operações internacionais apresentam um quadro heterogêneo. O segmento de bebidas não alcoólicas (NAB Brasil) segue em uma recuperação gradual, com projeções de crescimento de 9,7% no EBITDA. Em contrapartida, as unidades regionais enfrentam dificuldades específicas. A América Central e Caribe (CAC) projeta uma queda expressiva de 12,3% no EBITDA, evidenciando as vulnerabilidades cambiais e operacionais nessas geografias.
No Canadá, a situação é igualmente desafiadora, com expectativa de recuo de 2,0% nos volumes e uma queda de 9,8% no EBITDA. Esse desempenho misto reforça a dependência da Ambev em relação ao mercado brasileiro para sustentar seus resultados consolidados, que o Citi estima terem uma alta de 3,6% no EBITDA total. A diversificação geográfica, embora estratégica, atua no momento como um contraponto aos ganhos obtidos localmente.
O dilema do consumidor brasileiro
O ponto central para os investidores reside na sustentabilidade dessa recuperação. O Citi alerta que os fundamentos do consumidor permanecem praticamente inalterados, o que limita o potencial de expansão a longo prazo. Embora as condições climáticas tenham exercido um impacto limitado no trimestre, a dependência de eventos sazonais, como a Copa do Mundo, para impulsionar o volume levanta questões sobre a resiliência da demanda orgânica em um cenário de renda disponível estagnada.
O mercado financeiro reflete essa cautela através da manutenção da recomendação Neutra para o papel. Com um preço-alvo de R$ 16,50 e sendo negociada a 16 vezes o lucro estimado para 2026, a ação da Ambev é vista como um ativo de estabilidade, mas com espaço limitado para uma valorização agressiva enquanto o poder de compra do consumidor não apresentar uma trajetória clara de melhora.
Perspectivas e incertezas
O que permanece em aberto para o restante do ano é a capacidade da Ambev de manter a disciplina de preços sem sacrificar sua participação de mercado em um ambiente competitivo. A transição para o segundo semestre exigirá que a companhia compense o fim do efeito dos grandes eventos esportivos com ganhos de produtividade ainda mais agressivos.
Os analistas continuarão observando de perto se a desaceleração dos custos será suficiente para proteger as margens caso a demanda sofra uma nova retração. A trajetória da empresa nos próximos meses servirá como um termômetro para a confiança do investidor em relação ao setor de bens de consumo no Brasil.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





