O CEO da rede de cinemas AMC, Adam Aron, não poupou adjetivos para descrever a iniciativa da Robinhood de oferecer uma versão tokenizada das ações de sua empresa: “desprezível, ultrajante, nojento, detestável, indesculpável, vil”. A reação visceral, reportada pela revista Fortune, expõe uma tensão que vai muito além de uma disputa entre duas companhias.

O episódio é um sintoma de um movimento maior, análogo ao que o Napster representou para a indústria da música há 25 anos. Uma nova tecnologia, a blockchain, permite uma forma de distribuição mais eficiente e global de um ativo — neste caso, ações do mercado americano —, desafiando o modelo estabelecido e provocando a ira dos incumbentes que temem perder o controle.

A disrupção bate à porta

O que a Robinhood está fazendo não é criar novas ações, mas sim um arranjo jurídico e tecnológico engenhoso. A corretora compra lotes de ações da AMC no mercado tradicional, cria uma versão tokenizada de cada papel em sua plataforma e oferece aos seus clientes contratos que lhes dão uma reivindicação financeira sobre esses tokens. O modelo é similar ao de um BDR, mas operando sobre trilhos de blockchain.

A principal vantagem é a democratização do acesso. Para um investidor no Brasil ou na África do Sul, por exemplo, comprar ações de empresas americanas pode ser um processo caro e burocrático, com taxas elevadas e disponibilidade limitada. A tokenização reduz drasticamente essa fricção, tornando o investimento em equities dos EUA mais barato e acessível globalmente, assim como o Napster fez com o acesso a músicas.

Controle versus inovação

Então, por que a fúria do CEO da AMC? Parte da reação é o receio instintivo de qualquer empresa diante de uma tecnologia que pode minar seu controle sobre a distribuição e o perfil de seus acionistas. Contudo, existem preocupações legítimas. As ações tradicionais conferem direitos, como o de voto em assembleias, que a versão tokenizada da Robinhood não oferece.

Há também a questão da custódia e do risco de fraude. Enquanto empresas como Robinhood e Coinbase operam com intermediários registrados e têm reputações a zelar, é fácil imaginar operadores mal-intencionados oferecendo “tokens” da Apple ou da própria AMC sem lastro algum, criando pânico e afetando o valor real das ações. A leitura do mercado, no entanto, é que a solução não é proibir, mas regular.

O caminho parece ser a criação de um arcabouço legal que permita a operação de bons atores, assim como ocorreu na indústria musical pós-Napster, abrindo espaço para o surgimento de plataformas como Spotify e Apple Music. Esse movimento já está em curso, com a SEC estudando regras para o tema e players como a Nasdaq investindo em empresas de finanças nativas em blockchain. A briga da vez, como a história mostra, dificilmente será capaz de conter a tecnologia por muito tempo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune