Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, enviou um recado direto a Washington: o Brasil deve acelerar a preparação de contramedidas comerciais em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos. A declaração, feita em entrevista ao jornal Valor e repercutida pela InfoMoney, marca uma inflexão no tom da diplomacia brasileira.

Após um longo período dedicado a consultas, a posição de Amorim sugere que o governo Lula está disposto a sair da defensiva. A tese é que o Brasil deve utilizar os instrumentos da Lei da Reciprocidade Econômica não apenas como um direito, mas como uma ferramenta de pressão para forçar uma negociação mais favorável com seu segundo maior parceiro comercial.

Do diálogo à dissuasão

A lógica por trás da fala de Amorim é um princípio básico da negociação: sem uma ameaça crível de retaliação, o poder de barganha do Brasil é limitado. “Para que você obtenha alguma coisa na negociação, você tem que partir do princípio de que ela pode ir até o final”, afirmou o embaixador, segundo a reportagem. A mensagem é que a fase de consultas diplomáticas precisa dar lugar a uma postura de dissuasão econômica, onde a possibilidade de uma resposta brasileira se torna um fator real na mesa.

Essa estratégia, no entanto, não é isenta de custos. O próprio assessor reconhece que alguns setores exportadores, altamente dependentes do mercado americano, seriam prejudicados. O cálculo político para o governo é complexo: sopesar o ganho estratégico de longo prazo contra o prejuízo econômico imediato de indústrias específicas, que certamente pressionarão contra qualquer medida de retaliação. A busca por mercados alternativos, sugerida por Amorim, é uma solução de médio a longo prazo para um problema de curto prazo.

A discussão transcende o comércio. Ao mencionar preocupações com possíveis operações militares americanas na América Latina e defender o aumento do orçamento de Defesa, Amorim insere a disputa tarifária em um contexto geopolítico mais amplo. A sinalização não é apenas sobre aço ou produtos agrícolas; é sobre a busca por maior autonomia estratégica em um cenário global cada vez mais polarizado. A retaliação comercial, nesse xadrez, é apenas uma das peças.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney