Em abril de 2029, o asteroide 99942 Apophis fará uma passagem notavelmente próxima da Terra, a apenas 32 mil quilômetros de distância — mais perto do que muitos satélites de comunicação. O que antes era uma fonte de ansiedade, com temores de um possível impacto, hoje é visto como um evento seguro e uma oportunidade científica sem paralelos.

A ironia, segundo uma análise recente reportada pelo site Xataka, é que o script se inverteu. O Apophis não representa um risco para nós, mas a nossa crescente pegada de lixo espacial pode ser um risco para ele — ou, mais precisamente, para a ciência que esperamos extrair de sua visita.

Um laboratório natural em risco

A passagem de Apophis é um laboratório natural para a ciência planetária. A gravidade da Terra exercerá forças de maré sobre o asteroide, esticando e deformando sua estrutura. Esse fenômeno pode desencadear abalos sísmicos e deslizamentos em sua superfície, oferecendo uma visão rara da coesão interna e da resposta de um corpo celeste a perturbações gravitacionais.

Para capturar esse momento, duas missões espaciais estarão a postos: a OSIRIS-APEX, da NASA, e a RAMSES, da Agência Espacial Europeia (ESA). Equipadas com sismômetros e outros instrumentos, elas foram projetadas para registrar esses eventos naturais. O objetivo é entender a física fundamental dos asteroides, informação crucial para futuras missões de defesa planetária e exploração de recursos.

A contaminação dos dados

O problema é que a trajetória de Apophis o levará através da órbita geoestacionária (GEO), uma região que, embora menos congestionada que a órbita baixa (LEO), já acumula detritos de satélites desativados. Simulações conduzidas por dois cientistas italianos indicam uma probabilidade, ainda que pequena, de um desses fragmentos colidir com o asteroide durante sua aproximação.

Um impacto, mesmo que de um pequeno pedaço de metal, geraria seu próprio abalo sísmico e uma pluma de material ejetado. Para os instrumentos da NASA e da ESA, seria impossível distinguir com certeza essa “contaminação” dos fenômenos naturais que pretendem estudar. A integridade de um conjunto de dados único, coletado a um custo de centenas de milhões de dólares, estaria comprometida.

A questão com Apophis não é o risco de um desastre, mas a perda de conhecimento. O episódio serve como um alerta sóbrio: o problema do lixo espacial não se limita a ameaçar satélites ativos. Ele já começa a interferir em nossa capacidade de fazer ciência pura, transformando o cosmos em um reflexo de nossa própria desordem.

Source · Xataka