Michael Preysman, o fundador da Everlane, está preparando o terreno para uma nova empreitada no varejo de moda. Pouco tempo após a venda de sua primeira empresa para a Shein, gigante asiática do fast-fashion, o executivo revelou a criação de uma nova marca batizada de "Still Radical". O anúncio inicial foi feito de forma discreta, por meio de um site que, no momento, atua apenas como uma página de captura para coleta de e-mails de consumidores interessados.
O detalhe que mais chama a atenção no projeto incipiente, no entanto, é a sua estrutura de capital proposta. Em uma mensagem publicada no site da nova marca, Preysman delineou a tese do negócio afirmando que trará "os mesmos princípios, mas com uma nova abordagem". A declaração vem acompanhada de uma diretriz clara sobre o financiamento da operação: "E desta vez: sem venture capital, sem private equity".
O distanciamento do modelo D2C financiado por risco
A recusa explícita a fundos institucionais marca um contraponto direto à trajetória da própria Everlane. Fundada na década de 2010, a empresa foi um dos nomes mais proeminentes da primeira geração de marcas diretas ao consumidor (D2C), um modelo de negócios que dependeu fortemente de injeções agressivas de venture capital para subsidiar a aquisição de clientes e escalar operações rapidamente. A Everlane construiu sua reputação em torno do conceito de "transparência radical", detalhando os custos de produção e as margens de lucro de suas peças de vestuário básico.
A decisão de Preysman de evitar o capital de risco na Still Radical sugere uma leitura crítica sobre as pressões de crescimento impostas por esse tipo de financiamento no setor de varejo. Marcas D2C frequentemente enfrentam dificuldades para conciliar as expectativas de retorno exponencial dos fundos de venture capital com a realidade das margens operacionais do e-commerce de bens de consumo. A dependência histórica de anúncios em plataformas digitais elevou os custos de aquisição de clientes a níveis que corroeram a rentabilidade de muitas dessas startups. Ao optar por um caminho independente, o fundador parece buscar um ritmo de expansão ditado pela sustentabilidade do fluxo de caixa e pela fidelização orgânica, em vez de metas infladas de valuation.
O peso do desfecho com a Shein
O momento do anúncio também carrega um simbolismo institucional relevante. A Everlane, que outrora se posicionou como a antítese do fast-fashion por meio de sua ênfase em sustentabilidade e ética na cadeia de suprimentos, foi recentemente adquirida pela Shein. A gigante asiática, embora seja um fenômeno global de vendas e inovação logística, opera um modelo de ultra-fast-fashion que é frequentemente alvo de escrutínio justamente pelas práticas ambientais e de volume de produção que a Everlane criticava em sua fundação.
O desfecho da Everlane ilustra o ciclo de vida complexo de startups de consumo que captam grandes volumes de capital: a necessidade de liquidez para os investidores muitas vezes culmina em fusões ou aquisições estratégicas que podem desalinhar a marca de sua missão original. A promessa de manter os "mesmos princípios" na Still Radical, combinada com a rejeição ao capital institucional, indica uma tentativa de Preysman de recriar a tese de transparência da Everlane, mas com uma estrutura de governança que blinde a nova empresa das pressões de saída (exit) que ditaram o destino de sua primeira companhia.
O desenvolvimento da Still Radical permanece em estágio inicial, e a viabilidade de escalar uma marca de moda contemporânea sem o suporte de capital institucional será o principal teste para a nova tese de Preysman. O movimento reflete um ceticismo crescente entre fundadores de bens de consumo sobre o alinhamento entre venture capital e o varejo tradicional, apontando para possíveis novos arranjos de financiamento no setor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Retail Dive





