O BlackStar Film Festival, um dos principais palcos para o cinema da diáspora africana, comemorou sua 15ª edição na Filadélfia. O que começou em 2012 como um encontro anual focado em narrativas negras, fundado pela cineasta e curadora Maori Karmael Holmes, transformou-se em uma organização robusta, a BlackStar Projects, que hoje apoia cineastas negros, pardos e indígenas com uma gama de iniciativas que vão muito além do festival.

A trajetória do BlackStar, de uma plataforma de exibição para um ecossistema de fomento, encapsula um dos maiores desafios do setor cultural contemporâneo: a necessidade de ir além do evento e construir infraestrutura perene. Em uma entrevista ao portal Hyperallergic, Holmes detalha sua própria jornada, que espelha a do festival — uma transição de programar filmes para construir a instituição que os viabiliza. A leitura é que a longevidade no cenário cultural depende menos de curadorias brilhantes e mais de modelos de negócio sustentáveis.

Da Curadoria à Infraestrutura

Nos primeiros nove anos, Holmes atuou como programadora do festival, uma função centrada na seleção e apresentação de obras. Hoje, como diretora executiva e artística, seu foco mudou drasticamente. “Eu gasto minha energia mantendo a organização à tona”, afirma. A mudança reflete uma maturidade estratégica. O trabalho deixou de ser a escolha do filme individual para se concentrar em garantir que a estrutura que permite a existência desses filmes — e de seus criadores — continue de pé. É uma lição valiosa para empreendedores culturais no Brasil, onde a dependência de editais e patrocínios pontuais muitas vezes impede a construção de instituições duradouras.

Essa visão se reflete na programação, que não é guiada pelo mercado. O BlackStar exibe desde obras experimentais a videoclipes, posicionando-se como um “recipiente para todos os tipos de histórias”. O objetivo, segundo Holmes, é que pessoas de cor dedicadas ao cinema “possam fazer um trabalho que seja significativo para elas”. Essa abordagem, focada na arte e não apenas no potencial comercial, coloca o festival em uma posição distinta, mas também acentua a pressão constante por recursos financeiros para manter a visão intacta, um dilema familiar a qualquer organização sem fins lucrativos com ambição cultural.

A Subjetividade como Verdade

A filosofia do festival é um contraponto deliberado a narrativas hegemônicas. Holmes defende que “toda narrativa é subjetiva” e que a verdade requer múltiplas perspectivas. Em um ano em que os Estados Unidos se preparam para seu 250º aniversário, o BlackStar provocou uma reflexão ao destacar filmes do Haiti, questionando qual independência merece ser celebrada. “Que tal o aniversário da libertação deste país negro neste hemisfério?”, questiona Holmes. É um posicionamento editorial forte, que usa a curadoria como ferramenta para desafiar o cânone histórico.

Essa missão opera em um cenário de mídia radicalmente transformado desde 2012. A ascensão do streaming e de plataformas como TikTok e Vimeo democratizou o acesso à produção e distribuição, mas também alterou a estética e o consumo de imagens em movimento. Se antes um filme independente “morria” após o circuito de festivais, hoje ele pode encontrar sobrevida online. Paradoxalmente, essa abundância de conteúdo torna a curadoria de espaços como o BlackStar ainda mais crucial. O festival não serve apenas para exibir, mas para contextualizar, validar e construir uma comunidade em torno de uma forma de arte que, segundo Holmes, “tem o poder de criar um mundo melhor”.

O futuro do BlackStar, na visão de sua fundadora, depende de uma única palavra: recursos. O foco para os próximos 15 anos é consolidar a capacidade da organização de continuar fomentando cineastas de forma justa, pagando licenças de exibição e mantendo o evento acessível. Holmes projeta um futuro em que o festival se torne “seu próprio organismo”, capaz de evoluir para além de sua figura. A ambição não é criar um legado pessoal, mas garantir que a instituição que ela construiu tenha a solidez necessária para sobreviver e prosperar por conta própria.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic