A maioria dos trabalhadores brasileiros (59%) deseja se aposentar até os 60 anos, mas menos da metade disso, apenas 28%, acredita que de fato alcançará esse objetivo. O dado, parte de uma nova pesquisa do Datafolha encomendada pela Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi), expõe um profundo descompasso entre a aspiração e a realidade percebida pela população.

Este abismo, no entanto, não é apenas um reflexo da conjuntura econômica. Ele sinaliza uma fragilidade estrutural no planejamento financeiro do brasileiro, marcada por uma forte dependência do sistema público, baixa penetração de produtos privados e uma falha crônica do setor de seguros em comunicar seu valor. A análise dos dados sugere que a indústria não briga apenas com a inércia, mas com novos e potentes competidores pela atenção e pelo bolso do consumidor, como as plataformas de apostas online.

O paradoxo da proteção

A dependência da Previdência Social (INSS) é quase absoluta: o sistema público é a principal fonte de sustento para 92% dos já aposentados, segundo a pesquisa. Contudo, a incerteza sobre o futuro impera entre os trabalhadores na ativa, com 65% admitindo não ter ideia de quanto receberão do INSS. Essa insegurança, entretanto, não se converte em ação. Apenas 9% dos entrevistados possuem um plano de previdência privada e 18% contam com seguro de vida. O produto de proteção mais comum, com 30% de adesão, é o auxílio-funeral — um indicativo de um pensamento reativo, focado no inevitável, e não proativo, focado na construção de segurança em vida.

A barreira não é apenas financeira. O próprio setor reconhece sua responsabilidade na dificuldade de comunicação. O fato de que apenas 12% dos brasileiros entendem o significado do termo “prêmio”, jargão básico do mercado segurador, é um atestado dessa falha. Soma-se a isso a percepção de que os produtos são caros, uma crença de 45% dos entrevistados que nunca chegaram a cotar um serviço. O desafio da indústria é, portanto, educacional. Mais do que vender apólices, é preciso vender o conceito de planejamento de longo prazo em um país culturalmente imediatista.

A nova concorrência pelo orçamento

O estudo revela uma contradição ainda mais contemporânea. Enquanto o medo de problemas de saúde é uma preocupação central para 72% da população, apenas 28% tomaram alguma atitude prática para se proteger financeiramente. A questão que emerge é: para onde está indo o dinheiro que poderia ser alocado para essa proteção? Uma das respostas, apontada por executivos do setor durante a divulgação da pesquisa, está no avanço das apostas online.

Segundo Ângela Assis, CEO da Brasilprev, uma parcela significativa de jovens de até 35 anos gasta, em média, R$ 200 por mês em plataformas de apostas. “Com R$ 200 mensais é plenamente possível contratar um plano de previdência ou um seguro de vida nessa faixa etária”, afirmou a executiva. A leitura é clara: o problema não é necessariamente a falta de capacidade financeira, mas uma disputa de prioridades. O apelo da gratificação instantânea e a possibilidade de um ganho rápido, ainda que improvável, parecem mais tangíveis para parte da população do que a segurança abstrata de uma reserva para a aposentadoria.

A indústria sinaliza que pretende reagir com produtos mais flexíveis e multifuncionais, que combinem benefícios de aposentadoria e seguros para uso em vida, algo que 80% dos entrevistados dizem ter interesse. Contudo, a inovação no portfólio é apenas parte da equação. O desafio fundamental é cultural e comportamental: convencer o brasileiro de que a melhor aposta para o futuro não é um jogo de sorte, mas um plano consistente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney