O aplicativo do banco, antes o principal portal para transações financeiras, está gradualmente perdendo seu status de destino principal para os usuários. A ascensão das chamadas 'finanças embarcadas' (Embedded Finance) — a integração de serviços financeiros em plataformas não financeiras — sinaliza uma mudança profunda na experiência do cliente. O conceito, antecipado por especialistas como Brett King em 2018, sugere que quem melhor dialoga com o consumidor tende a capturar mais valor, independentemente de deter a custódia dos recursos.

No Brasil, iniciativas como a Magie, banco no WhatsApp, já demonstram essa tendência, permitindo iniciações de pagamento em diversos canais. Esse movimento abre espaço para 'agentes' — sejam eles plataformas ou inteligências artificiais — que comparam taxas e serviços 24 horas por dia, oferecendo alternativas mais convenientes aos clientes. A fricção, que antes gerava receita para instituições financeiras, está sendo eliminada, mas levanta questões jurídicas cruciais sobre a responsabilidade por transações executadas autonomamente por esses agentes.

A Identidade Digital Ganha Novas Funções

Paralelamente à perda de centralidade do app bancário, a identidade digital está evoluindo para além da mera comprovação de quem somos. Com a crescente capacidade de agentes de IA de agir em nosso nome, a identidade digital precisará incorporar autorizações explícitas: o que esses agentes podem fazer, em nome de quem e até que limite. Países como Índia e Singapura já possuem identidades digitais robustas. No Brasil, o portal gov.br, com milhões de usuários, é eficaz para autenticação em serviços públicos, mas ainda não se consolidou como uma carteira digital capaz de apresentar credenciais verificáveis a diferentes instituições.

Um ponto forte do ecossistema brasileiro, no entanto, é a integração do consentimento e da revogação de permissões no Open Finance desde sua concepção. Isso contrasta com desafios enfrentados em protocolos globais para agentes autônomos. A consolidação de um sistema de identidade digital unificado e com capacidades de autorização avançadas é um passo necessário para acompanhar a evolução dos serviços financeiros.

Dados Ampliam, Mas Podem Complica o Crédito

A expansão e digitalização do acesso a crédito, impulsionada pela disponibilidade de dados, é uma realidade em mercados como o da Índia, que viu um aumento no empréstimo com garantia de ouro, e no Brasil, com o Crédito do Trabalhador. Contudo, a mera disponibilidade de dados não garante eficiência. Um estudo da Zetta revelou que 61,5% das consultas de Open Finance no Brasil são ineficientes, pois as instituições receptoras precisam consultar periodicamente as transmissoras para verificar atualizações, muitas vezes encontrando dados inalterados.

Essa ineficiência na circulação de dados é um gargalo. Além disso, a medição do impacto do compartilhamento de dados na concessão de crédito ainda é incipiente no Brasil, ao contrário da Índia, que publica indicadores claros. A complexidade de modelos que consideram dezenas de variáveis também dificulta a compreensão e contestação de decisões de inelegibilidade por parte dos consumidores, um ponto que demanda atenção regulatória.

Regulador e Mercado em Busca de Agilidade

O ciclo tradicional de consulta pública, análise e norma, desenhado para um ritmo de mudanças mais lento, mostra-se ultrapassado diante da velocidade da inovação financeira. Enquanto o Banco Central da Arábia Saudita (SAMA) incentiva fintechs e aproxima regulador e tecnologia, o Banco Central do Brasil, por meio de cooperação com a Fenasbac para o LIFT, busca se aproximar do mercado. No entanto, o instrumento regulatório principal permanece o ciclo de consulta pública.

A proposta de políticas financeiras com loops de feedback mais curtos, métricas públicas e revisões programadas, sem comprometer o rigor, permitiria uma adaptação mais ágil às evidências sobre o que funciona e o que necessita de ajuste. A tecnologia, hoje uma commodity, não é mais o diferencial; a disputa se desloca para o controle da experiência, a definição de permissões e a responsabilidade em caso de falhas sistêmicas.

O Brasil possui uma base sólida com trilho, consentimento, revogação e escala. Contudo, a separação entre experiência e custódia exige um olhar atento sobre quem definirá as regras no futuro. A agilidade na adaptação regulatória e a clareza sobre a responsabilidade em um cenário de crescente automação são cruciais para moldar o futuro dos serviços financeiros.

Com reportagem de Brazil Valley

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