Ignacio Rojas Hirigoyen e Leonardo Gúzman Valencia concluíram em 2025 o Industrialized Building System Prototype II (IBSP II), uma habitação modular erguida sobre palafitas em Matanzas, Chile. O projeto, que se debruça sobre um terreno íngreme de 5.000 metros quadrados, busca oferecer uma resposta técnica à crise habitacional global através de uma estrutura autoportante que minimiza o impacto no solo.
A construção, com 120 metros quadrados, marca a segunda iteração de um sistema iniciado em 2023. Segundo a dupla de arquitetos, o objetivo central foi desvincular a estrutura de suporte do volume habitável, permitindo que a envoltória da casa atue como um elemento de mediação climática ativa, capaz de gerenciar ventos, salinidade e radiação solar intensa, desafios comuns na costa chilena.
Arquitetura de baixo impacto
O uso de palafitas triangulares não é apenas um recurso estético, mas uma solução de engenharia para lidar com a topografia acidentada sem a necessidade de terraplanagem invasiva. Ao elevar a residência, os arquitetos garantem que o sistema possa ser implantado em diversos contextos geográficos, mantendo a precisão construtiva. Essa abordagem reflete uma tendência crescente na arquitetura modular contemporânea que prioriza a adaptabilidade do terreno sobre a adaptação do terreno à casa.
A separação entre a estrutura metálica e os painéis de madeira de fechamento permite que cada componente seja substituído ou atualizado individualmente ao longo do tempo. Essa modularidade estendida garante que a residência não seja uma estrutura estática, mas um conjunto de peças que podem evoluir conforme as necessidades dos ocupantes ou as mudanças nas condições climáticas, prolongando o ciclo de vida do edifício.
Eficiência e montagem rápida
Um dos pontos mais relevantes do IBSP II é a facilidade de montagem. O sistema foi projetado para ser executado sem a necessidade de mão de obra altamente especializada, sendo concluído em menos de um dia. Essa característica é fundamental para a escalabilidade de soluções habitacionais industrializadas, especialmente em regiões onde a disponibilidade de trabalhadores qualificados é limitada ou o custo de construção é proibitivo.
A eficiência do design também se traduz em conforto térmico e acústico. Os painéis modulares contêm isolamento, ventilação e sistemas de sombreamento integrados, reduzindo a demanda energética da residência. Ao tratar a envoltória como um componente ativo, os arquitetos conseguem otimizar o desempenho da casa em condições ambientais adversas, um diferencial importante frente a soluções modulares que focam apenas na rapidez e no custo de produção.
Implicações para o setor habitacional
O modelo chileno dialoga com um ecossistema de construções leves que ganha força na América Latina, onde a geografia diversa exige flexibilidade. Para reguladores e construtoras, o sucesso do protótipo sugere que a industrialização da moradia pode oferecer qualidade espacial superior sem sacrificar a viabilidade econômica. A capacidade de desmontagem e reaproveitamento de peças aponta para um futuro onde a construção civil pode se alinhar melhor às metas de economia circular.
No Brasil, onde o déficit habitacional e a diversidade de terrenos exigem soluções ágeis, a experiência chilena serve como um precedente técnico. A transição de soluções de baixo custo para sistemas de alta precisão que respeitam a topografia local representa um desafio que vai além da engenharia, envolvendo mudanças nas cadeias de suprimentos e nas normas de construção civil que ainda privilegiam métodos tradicionais.
O futuro das estruturas modulares
A permanência do sistema IBSP II em condições reais de exposição climática será o principal teste para a durabilidade dos materiais escolhidos. A questão que permanece é se o modelo conseguirá manter a viabilidade econômica em larga escala sem perder a precisão técnica que o torna único. O monitoramento contínuo da habitabilidade e do desgaste dos componentes fornecerá dados valiosos para a evolução de futuras iterações.
Observar como o mercado responderá a essa proposta definirá o ritmo de adoção de tecnologias similares. O sucesso do projeto em Matanzas não garante a viabilidade em outros climas, mas estabelece um padrão de clareza arquitetônica que desafia o setor a repensar a relação entre o custo de construção e a resiliência a longo prazo.
O projeto reafirma que a inovação na construção não reside apenas em novos materiais, mas na forma como os componentes existentes são organizados para responder à complexidade do território. A modularidade, quando tratada com rigor, deixa de ser apenas uma ferramenta de economia de tempo para se tornar um instrumento de qualidade de vida.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Dezeen Architecture





