A colaboração entre a Marriott International e a firma de arquitetura Gensler, iniciada há cerca de uma década, oferece um estudo de caso sobre a transição do design corporativo de uma despesa operacional para um pilar estratégico. Segundo reportagem da Fast Company, o relacionamento entre Anthony Capuano, CEO da Marriott, e Jordan Goldstein, co-CEO da Gensler, evoluiu desde o projeto da sede da rede hoteleira em Bethesda, Maryland, até uma visão compartilhada sobre como espaços físicos moldam o comportamento humano e a produtividade nas empresas.
Para os executivos, o ambiente de trabalho não é mais apenas um local de acomodação de pessoal, mas um ativo capaz de atrair talentos e fomentar a inovação. A tese central é que, em um mercado de trabalho competitivo, o design do escritório funciona como uma ferramenta de retenção e um catalisador para a cultura organizacional, superando a visão puramente financeira que dominou o setor nas últimas duas décadas.
A mudança no valor estratégico do design
Historicamente, as conversas entre CEOs e arquitetos eram pautadas quase exclusivamente pela otimização de custos e pela eficiência de ocupação por metro quadrado. Jordan Goldstein aponta que essa dinâmica mudou drasticamente nos últimos anos. O foco atual dos líderes corporativos está em como o espaço físico pode atuar como um ímã para os colaboradores, especialmente no contexto pós-pandemia, onde a flexibilidade do trabalho híbrido exige que o escritório ofereça algo que o ambiente doméstico não consegue replicar.
Essa abordagem reflete uma mudança na percepção de valor: o custo de construção ou reforma é agora pesado frente ao benefício de criar plataformas que facilitem a colaboração e a aprendizagem contínua. A arquitetura, portanto, é vista como um meio de projetar a cultura de uma empresa, transformando a estrutura física em um componente ativo da proposta de valor para o colaborador.
O mecanismo das colisões não planejadas
Um dos pontos fundamentais discutidos pelos CEOs é o conceito de "colisões não planejadas". Anthony Capuano descreve como a transição da antiga sede da Marriott, uma estrutura horizontal extensa que segregava departamentos, para o novo modelo vertical desenhado pela Gensler, alterou a dinâmica de interação na empresa. A arquitetura foi pensada para forçar encontros fortuitos entre funcionários de diferentes disciplinas em áreas de fluxo, como elevadores e refeitórios.
O incentivo por trás desse desenho é claro: a inovação raramente ocorre em silos. Ao estruturar o ambiente para que pessoas de áreas distintas se cruzem naturalmente, a empresa aumenta a probabilidade de trocas de ideias que, de outra forma, nunca aconteceriam. O design, nesse sentido, atua como um facilitador de processos informais de gestão, onde a arquitetura substitui a necessidade de mediação constante para a circulação de informações.
Design como experiência e storytelling
Além do ambiente corporativo interno, a arquitetura desempenha um papel crítico na experiência do cliente, especialmente no setor hoteleiro. Capuano destaca que os hóspedes buscam, cada vez mais, uma sensação de "lugar" e autenticidade. Quando a equipe de atendimento é reduzida ou as interações são limitadas, é o design que assume a responsabilidade de contar a história da marca e acolher o visitante.
Essa visão estende o conceito de design para além da estética, tratando-o como uma forma de comunicação não verbal. Para a Marriott, o design de um hotel é uma promessa de valor entregue no momento em que o hóspede entra no prédio. A arquitetura, portanto, funciona como um agente de serviço, garantindo que a identidade da empresa seja comunicada de forma consistente, independentemente da presença de funcionários em todos os pontos de contato.
O futuro da liderança no design
Para líderes que buscam se aproximar do design thinking, a recomendação de Capuano é a observação ativa. Ele sugere que, ao viajar, o executivo deve atentar-se aos detalhes arquitetônicos e à forma como o espaço influencia seu próprio comportamento. A ideia é que o CEO não precisa ser um arquiteto, mas deve ser capaz de articular os objetivos de negócio que o design deve sustentar.
O que permanece em aberto é a sustentabilidade dessa abordagem em um mundo onde a tecnologia digital continua a fragmentar a experiência física. A questão é se as empresas conseguirão manter a relevância do espaço físico como hub criativo à medida que as ferramentas de colaboração remota evoluem. A observação dos próximos anos dirá se o investimento em "colisões físicas" será suficiente para justificar os custos imobiliários frente a alternativas digitais mais baratas.
A arquitetura corporativa parece estar em um momento de redefinição, onde o sucesso não é medido pelo tamanho da área ocupada, mas pela qualidade das interações que o espaço permite. O desafio para os líderes será equilibrar a necessidade de espaços que inspirem com a pressão constante por eficiência operacional, mantendo a autenticidade que o mercado exige.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





