O cheiro de borracha e couro, tão característico de uma loja de artigos esportivos, ganha novas conotações quando misturado ao aroma amadeirado de um ateliê de design. Em um movimento que desafia as fronteiras entre o esporte e o mobiliário de alta gama, a ASICS, gigante global em calçados esportivos, e a Karimoku New Standard, sub-marca renomada do fabricante japonês Karimoku, apresentaram uma colaboração que transforma o que seria descartado em objetos de desejo: móveis feitos a partir de espuma de tênis reciclados.

A iniciativa, batizada de KNS x ASICS Collaboration, não é apenas um exercício de sustentabilidade, mas uma declaração de intenções sobre o futuro do design e da produção industrial. A dupla uniu expertise para dar uma nova vida a materiais que, de outra forma, acabariam em aterros sanitários. O resultado são duas peças de mobiliário — o Castor Lobby Sofa e a Polar Lounge Chair — que incorporam o conforto e a tecnologia da ASICS em um contexto de luxo e sofisticação.

A Origem dos Materiais: Do Asfalto ao Sofá

A magia começa com a desconstrução. Tênis de corrida da ASICS, sejam eles amostras de estoque ou peças com pequenos defeitos, são cuidadosamente desmontados. O foco recai sobre a espuma EVA (Etileno Vinil Acetato), um material leve e flexível, amplamente utilizado nas entressolas e solados de calçados esportivos por suas propriedades de amortecimento. A técnica empregada pela Karimoku New Standard para processar essa espuma é uma adaptação do método que a própria ASICS já utilizava em alguns de seus tênis upcycled, como os modelos Neocurve.

O processo envolve a trituração minuciosa da espuma EVA extraída. Esse material moído é então misturado com algodão e combinado a uma folha de espuma condensada de três milímetros. O resultado é uma estrutura híbrida inovadora, que preserva as qualidades de conforto e resiliência da espuma original, ao mesmo tempo em que se adapta às exigências de durabilidade e estética do mobiliário de design. É a ciência esportiva encontrando seu caminho para a sala de estar, provando que o conforto de um tênis pode ser reinterpretado em uma poltrona.

A Mão do Artesão: Transformando Resíduo em Arte

A Karimoku New Standard, conhecida por sua tradição em marcenaria de alta qualidade e colaborações com nomes como Zaha Hadid Design, aplicou seu rigor artesanal à nova matéria-prima. A transformação de resíduos de calçados em um componente de mobiliário de conforto exigiu sessões de trabalho intensivas com a ASICS, aproveitando a expertise da marca em ciência esportiva. O processo de prototipagem foi meticuloso, buscando não apenas a funcionalidade, mas a adaptação ao uso em ambientes reais, como escritórios e residências.

"Além de simplesmente reutilizar materiais de um ponto de vista de sustentabilidade, ele os transforma em um valor agregado funcional", destacou a Karimoku New Standard. Essa filosofia é visível nas peças finais: a Polar Lounge Chair, por exemplo, ostenta uma etiqueta bordada que sinaliza a colaboração, um selo discreto de inovação e consciência ambiental. A escolha de incorporar essa espuma em peças como o Castor Lobby Sofa sugere uma visão onde o design não se limita à forma, mas abraça a origem e o ciclo de vida dos materiais.

O Futuro do Design Sustentável: Um Legado de Conforto

Esta colaboração entre ASICS e Karimoku New Standard ecoa uma tendência crescente na indústria do design e da moda: a busca por soluções criativas e esteticamente agradáveis para o problema do desperdício. Ao invés de focar apenas na redução do impacto ambiental, a iniciativa eleva o conceito de upcycling, transformando um material considerado de baixo valor em um componente central de produtos de luxo. A ASICS, que já explorou parcerias com designers de moda como Issey Miyake e Hay, demonstra com esta ação um compromisso mais profundo com a circularidade.

Para o consumidor, a KNS x ASICS Collaboration oferece uma oportunidade de adquirir peças de design que carregam uma narrativa poderosa sobre responsabilidade e inovação. É um convite para repensar o valor dos objetos que nos cercam e o impacto de nossas escolhas de consumo. A pergunta que fica é: quantas outras indústrias podem se beneficiar de uma abordagem similar, transformando seus próprios resíduos em elementos de valor e beleza, redefinindo assim o próprio conceito de luxo?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen