A Avla Seguros, em parceria com a Galapagos Capital, a Tivio Capital e a fintech Marvin, concluiu uma operação de R$ 126 milhões por meio de uma Letra de Risco de Seguro (LRS). Esta emissão marca a primeira vez que o instrumento, criado pelo marco legal da securitização de 2022, é efetivamente distribuído a investidores institucionais externos, consolidando uma nova via de financiamento para o setor.

A operação foi lastreada em um contrato comercial entre uma fabricante de eletrônicos e uma varejista. A Tivio Capital, gestora de ativos alternativos do Grupo Bradesco, junto à Galapagos, atuou como investidora âncora, absorvendo mais da metade da oferta. A leitura aqui é que o mercado começa a testar a precificação de riscos de seguros como ativos financeiros, buscando prêmios superiores a estruturas de crédito privado convencionais.

Mecanismo de securitização de riscos

A LRS funciona através de uma Sociedade Seguradora de Propósito Específico (SSPE), um veículo regulado que isola o risco da apólice. A seguradora transfere o risco para a SSPE, que então emite o título para o mercado. Se o sinistro não ocorrer, o investidor recebe o principal acrescido de remuneração; caso ocorra, o capital é utilizado para cobrir a perda. O processo assemelha-se estruturalmente à emissão de FIDCs e CRIs, permitindo que o risco seja pulverizado entre investidores, em vez de ficar retido no balanço da seguradora ou ser integralmente repassado a resseguradores.

Este modelo transforma o mercado de capitais em um provedor direto de capacidade. A Galapagos, que já havia realizado operações menores com capital próprio, posiciona-se agora como uma infraestrutura de mercado. A ambição da gestora é transformar a SSPE em uma plataforma escalável para diversos ramos, incluindo vida, saúde e risco de longevidade, diversificando as fontes de liquidez para as seguradoras brasileiras.

Descompressão de capital e novas demandas

Para a Avla, a motivação principal foi a limitação de capacidade para atender à crescente demanda por seguro de crédito no Brasil. O acesso ao mercado de capitais permite que seguradoras contornem os gargalos do mercado tradicional de resseguros, que frequentemente impõe restrições baseadas em balanço. A LRS surge, portanto, como uma válvula de escape para seguradoras que buscam crescer sem comprometer excessivamente o capital próprio ou depender da volatilidade da oferta de resseguro.

Para os investidores institucionais, como a Tivio, o interesse reside na natureza do ativo. A LRS oferece uma classe de investimento descorrelacionada de ativos tradicionais como ações e renda fixa, apresentando menor volatilidade. Essa característica é fundamental para gestoras que buscam otimizar o portfólio em um cenário de busca por retornos ajustados ao risco em ativos alternativos.

Paralelos internacionais e o ecossistema local

O mercado brasileiro inspira-se nos Insurance Linked Securities (ILS), que movimentam mais de US$ 60 bilhões no exterior, focados majoritariamente em riscos catastróficos. A transição para o modelo brasileiro, que foca inicialmente em crédito e garantia, demonstra uma adaptação das ferramentas de securitização à realidade local, onde o risco de crédito corporativo é uma das maiores demandas do setor segurador.

A questão central para o futuro do instrumento é a capacidade de padronização. Com um pipeline de 12 a 15 operações em análise pela Galapagos, observa-se uma tentativa de criar um mercado secundário ou, ao menos, uma recorrência que garanta liquidez. Se a LRS se provar eficiente na precificação de riscos variados, a tendência é que o mercado de seguros brasileiro se integre de forma mais profunda e orgânica ao ecossistema de crédito privado.

Perspectivas para a maturidade do mercado

O que permanece em aberto é a velocidade de adesão por outros players e o comportamento da curva de juros frente a esse novo prêmio de risco. A aceitação por investidores institucionais será determinante para definir se a LRS se tornará uma fonte de financiamento perene ou um nicho restrito a operações estruturadas específicas.

O setor aguarda agora os próximos passos para entender a resiliência do modelo em diferentes ciclos econômicos. A evolução da LRS no Brasil será um termômetro da maturidade do mercado de capitais em absorver riscos complexos, transformando a subscrição de seguros em um ativo financeiro de prateleira para o investidor qualificado. Com reportagem de Brazil Valley

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