O governo da Comunidade de Madri, sob a liderança de Isabel Díaz Ayuso, acionou o Conselho de Estado para expressar sua profunda oposição a um novo Real Decreto sobre centros de dados, proposto pelo governo central espanhol. A administração regional alega que a nova regulamentação, apesar de ter suavizado algumas exigências em relação a um projeto anterior, ainda apresenta "graves consequências" para a economia de Madri. A estimativa é que o decreto possa colocar em risco até 26 bilhões de euros em investimentos — o equivalente a cerca de R$ 140 bilhões — e mais de 14.000 postos de trabalho na região.

Impacto na Economia Digital

O conselheiro de Digitalização de Madri, Miguel López-Valverde, criticou o novo texto, descrevendo-o como "discriminatório" e incapaz de resolver a insegurança jurídica que o setor enfrenta. Segundo ele, a regulamentação é "muito restritiva" e tende a "afugentar os investimentos para outros países europeus onde o quadro regulatório seja menos exigente". López-Valverde enfatizou a importância vital dos centros de dados para a transformação digital, rotulando-os como "o pilar da economia digital" e alertando que "não haverá economia digital sem centros de dados". A crítica central reside na percepção de que o governo central, ao tentar favorecer o setor de energias renováveis, acabou por desproteger uma indústria fundamental para o avanço tecnológico.

Exigências Energéticas e Insegurança Jurídica

Um dos pontos de maior discórdia são os requisitos energéticos impostos pelo decreto. O conselheiro de Madri alertou que as exigências de operação 24 horas por dia com fontes renováveis, que por sua natureza intermitente só cobrem cerca de 2.000 horas anuais, forçariam as empresas a "sobredimensionar o parque renovável e instalar ingentes quantidades de armazenamento". Isso, por sua vez, resultaria em "encarecimento dos preços da eletricidade" e um aumento na necessidade de infraestrutura de armazenamento, elevando os custos operacionais e de investimento. Além disso, a introdução voluntária do sistema SRAP (Sistema de Redução Automática da Potência), que permite à Red Eléctrica desconectar os data centers do sistema a qualquer momento, adiciona uma camada de "incerteza" sobre a continuidade das operações. A administração de Madri também questiona por que os data centers não recebem o mesmo tratamento favorável concedido a outros projetos estratégicos europeus, como as gigafábricas de baterias, que enfrentam requisitos menos rigorosos.

Disputa Regulatória e o Futuro da IA

A disputa entre o governo central e a Comunidade de Madri reflete um dilema crescente na Europa: como regular infraestruturas críticas para a economia digital, como os data centers, sem sufocar o crescimento e a inovação. A inteligência artificial (IA), em particular, depende intrinsecamente de vasta capacidade computacional e armazenamento de dados, que são fornecidos por esses centros. A regulamentação proposta, se implementada sem ajustes, pode criar um ambiente menos propício para o desenvolvimento e a expansão de projetos de IA na Espanha, desviando investimentos para jurisdições com políticas mais claras e favoráveis. A posição de Madri sugere uma busca por um equilíbrio regulatório que incentive a transição energética sem comprometer a competitividade do setor tecnológico.

Perguntas em Aberto

Resta saber se o Conselho de Estado dará razão às preocupações levantadas pelo governo de Madri ou se o decreto central prevalecerá em sua forma atual. A administração madrilenha busca uma revisão da norma, argumentando que as exigências podem inviabilizar o crescimento do setor e afastar investimentos cruciais. A decisão terá implicações significativas não apenas para o setor de data centers espanhol, mas também para o avanço da economia digital e da inteligência artificial no país. Em última análise, a capacidade da Espanha de atrair e reter infraestrutura tecnológica de ponta dependerá da clareza de seu quadro regulatório e da forma como a tensão entre desenvolvimento e sustentabilidade energética for resolvida.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España