O mercado de azeite espanhol foi agitado pela notícia de que a cooperativa Dcoop fez uma oferta de €470 milhões para adquirir a Deoleo, gigante do setor e dona de marcas como Carbonell e Hojiblanca. A proposta, que fez as ações da Deoleo dispararem mais de 20% na bolsa, visa comprar a participação de 57% hoje nas mãos do fundo de private equity CVC Capital Partners.

Segundo reportagem da Forbes España, que cita o jornal local ‘El Economista’, a transação está em fase final e pode ser concluída em setembro. A leitura aqui não é apenas de uma grande fusão, mas de um movimento estratégico que pode redefinir o controle de um dos principais produtos de exportação da Espanha, colocando um conglomerado de produtores no lugar de um fundo financeiro global.

Cooperativa vs. Private Equity

A possível venda da Deoleo para a Dcoop contrapõe duas lógicas de capital distintas. De um lado, a CVC, um fundo de private equity cujo objetivo primário é a maximização do retorno financeiro para seus investidores, tipicamente através de reestruturações e uma venda futura (o chamado “exit”). Do outro, a Dcoop, uma cooperativa cujos donos são os próprios agricultores, interessada em garantir a estabilidade e o valor em toda a cadeia produtiva, do olival à gôndola.

Se concretizada, a operação daria origem a um gigante com faturamento combinado de mais de €2,2 bilhões, consolidando um forte player de capital nacional. A proposta encontra eco em sindicatos como o CCOO, que defende um comprador espanhol para garantir empregos e o “arraigo industrial” do setor, pedindo que o governo ative mecanismos para blindar a indústria de fundos especulativos estrangeiros.

A disputa pelo ouro líquido

A Dcoop, no entanto, não está sozinha na disputa. A Deoleo também atraiu o interesse de concorrentes internacionais da Itália (Coricelli, Bonifiche Ferraresi, Newlat Food), França (Lesieur) e até da Austrália (Cobram Estate Olive). A concorrência acirrada sublinha o valor estratégico de marcas consolidadas e canais de distribuição globais em um setor sensível a variações climáticas e de preço.

O debate que se desenha na Espanha é emblemático e espelha discussões vistas em outros mercados, inclusive no Brasil, sobre setores estratégicos. A questão central é se um ativo de tamanha importância para a economia e a cultura do país deve ser gerido pela lógica do maior lance, independentemente da origem do capital, ou se o controle nacional deve ser um fator preponderante na equação.

A conclusão do negócio, coordenada pela KPMG, será um termômetro para o futuro da indústria alimentícia europeia. O resultado dirá se o capital produtivo, representado pela cooperativa, consegue se impor sobre a lógica puramente financeira do private equity ou se a consolidação virá por meio de um concorrente estrangeiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España