A narrativa econômica dominante nos últimos anos tem sido pautada pela divergência em formato de K, onde a recuperação e o crescimento se concentram no topo da pirâmide, enquanto as camadas de menor renda enfrentam pressões inflacionárias persistentes. Contudo, uma nova leitura proposta por Ed Yardeni, presidente da Yardeni Research, sugere que o verdadeiro motor de sustentação da economia americana reside na dinâmica intergeracional entre os baby boomers e seus descendentes. Segundo análise recente, a economia estaria, na verdade, em um formato de G, impulsionada pelo fluxo financeiro que sai dos lares mais abastados em direção aos mais jovens.

Essa configuração, batizada de economia em G, descreve um cenário onde os americanos mais velhos, que detêm a maior fatia da riqueza doméstica, atuam como um amortecedor para as dificuldades enfrentadas por millennials e membros da geração Z. Longe de reduzir o consumo após a aposentadoria, essa coorte mantém um ritmo elevado de gastos em serviços e lazer, ao mesmo tempo em que provê suporte direto para cobrir despesas básicas de seus familiares. A tese editorial aqui é que o consumo americano não é apenas um reflexo da produtividade laboral, mas uma transferência massiva de capital acumulado ao longo de décadas.

O peso da riqueza acumulada

A centralidade dos baby boomers no cenário macroeconômico atual tem raízes em uma acumulação de ativos sem precedentes. Dados do Federal Reserve indicam que os nascidos entre 1946 e 1964 controlam aproximadamente 89,6 trilhões de dólares, volume que representa cerca de metade de toda a riqueza das famílias americanas. Esse estoque de capital permite que o grupo mantenha um padrão de gastos resiliente, mesmo em períodos de incerteza econômica, consolidando-se como o segmento mais relevante para o varejo e o setor de serviços.

Além da liquidez, a propriedade imobiliária reforça essa posição de comando. Com cerca de um terço da riqueza imobiliária dos EUA concentrada sob controle dessa geração, o efeito riqueza gerado pela valorização dos ativos habitacionais garante uma base de consumo robusta. Diferente de ciclos anteriores, a aposentadoria atual não significa retração, mas sim a migração de recursos para categorias como viagens, lazer e cuidados de saúde, tornando os boomers os principais sustentáculos da demanda agregada no mercado interno.

Mecanismos de transferência intergeracional

O mecanismo que sustenta o formato de G é a transferência de renda direta, que ocorre tanto via auxílio financeiro quanto pela convivência multigeracional. Pesquisas recentes apontam que uma parcela significativa de adultos jovens recorre a familiares para arcar com custos básicos de vida, enquanto a coabitação com os pais voltou a subir entre a faixa de 25 a 34 anos. Esse fluxo de recursos não apenas alivia a pressão sobre os orçamentos domésticos dos mais novos, mas também evita uma contração mais severa do consumo total no país.

Vale notar que esse suporte atua como um 'piso' para o consumo, enquanto os gastos dos próprios boomers funcionam como um 'teto' que impulsiona o crescimento. O setor de saúde, por exemplo, tornou-se um dos poucos redutos de expansão constante no mercado de trabalho, absorvendo a demanda por serviços especializados que acompanham o envelhecimento da população. A economia, portanto, torna-se dependente de um ciclo onde o capital acumulado no passado financia a sobrevivência do presente.

Implicações para o ecossistema econômico

A dependência em relação à riqueza dos boomers traz desafios estruturais para o longo prazo. Enquanto o suporte financeiro familiar impede uma crise de consumo imediata, ele mascara a fragilidade da renda real das gerações mais novas. Reguladores e analistas observam com cautela o aumento da dívida familiar e a falta de capacidade de poupança dos millennials, que permanecem atrelados à estabilidade financeira de seus antecessores, criando um risco de concentração de riqueza ainda maior.

Para o mercado, a leitura é de que a resiliência econômica americana está intrinsecamente ligada à demografia. Concorrentes e investidores precisam reconhecer que o setor de consumo não responde apenas a taxas de juros ou políticas fiscais, mas à longevidade e à disposição de gastos dos boomers. A desconexão entre a prosperidade dessa geração e a crise de acessibilidade enfrentada pelos jovens é a tensão central que definirá o comportamento dos mercados nos próximos anos.

Incertezas sobre a sustentabilidade

O que permanece em aberto é a capacidade desse modelo de se sustentar à medida que a transferência de riqueza se acelera ou se esgota. A pergunta central é por quanto tempo o fluxo de capital dos boomers conseguirá compensar as lacunas salariais dos jovens sem gerar distorções sistêmicas no mercado imobiliário e de crédito.

O monitoramento do comportamento de gastos pós-aposentadoria será crucial para entender se essa tendência de consumo elevado se manterá ou se, em algum momento, a necessidade de cuidados médicos de longo prazo forçará uma repriorização dos recursos dos boomers. A trajetória da economia americana, portanto, parece estar menos atrelada a ciclos de inovação tecnológica e mais vinculada ao ciclo de vida de uma única geração.

O cenário desenhado por Yardeni força uma reavaliação das métricas tradicionais de saúde econômica, sugerindo que a desigualdade pode ser, paradoxalmente, a força que mantém o consumo aquecido. Resta observar como as políticas públicas reagirão a essa dependência intergeracional, especialmente se a transferência de riqueza não for suficiente para resolver a crise de acessibilidade que trava o desenvolvimento da base da pirâmide.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider