As luzes do centro de convenções em Baku começaram a diminuir, marcando o fim de uma maratona de seis dias onde o futuro das cidades foi colocado sob uma lente de aumento. Não se tratava apenas de discutir tijolos, cimento ou o traçado de novas ruas, mas de enfrentar a urgência de um mundo que se urbaniza em ritmo acelerado e, muitas vezes, desigual. O Fórum Urbano Mundial, organizado pela UN-Habitat em conjunto com o governo do Azerbaijão, transformou a capital caucasiana em um laboratório de ideias sobre o que significa, de fato, abrigar a humanidade em comunidades seguras e resilientes.

A urgência da habitação global

A crise habitacional deixou de ser um problema periférico para se tornar o epicentro das tensões sociais em quase todas as grandes metrópoles. Em Baku, o tom dos painéis e das exposições foi de uma sobriedade necessária, reconhecendo que a arquitetura, quando desvinculada de políticas públicas robustas, torna-se um exercício de estilo em vez de uma solução. O debate sobre a resiliência urbana não se limitou a desastres climáticos, mas abarcou a capacidade das cidades de absorver fluxos migratórios e garantir dignidade básica.

O desenho da inclusão urbana

Arquitetos, urbanistas e formuladores de políticas públicas caminharam pelos corredores do fórum com uma pergunta recorrente: para quem estamos construindo? A inclusão urbana, tema central desta edição, exige que o planejamento deixe de ser um processo de cima para baixo. A experiência de realizar o evento pela primeira vez na região do Cáucaso trouxe perspectivas geográficas distintas, forçando uma reflexão sobre como tradições locais podem dialogar com as demandas universais por infraestrutura eficiente.

Tensões entre crescimento e resiliência

O dilema entre o crescimento econômico desenfreado e a manutenção de espaços habitáveis é o grande nó górdio do século XXI. As discussões em Baku evidenciaram que cidades que ignoram o planejamento de longo prazo em favor de ganhos imediatos estão, essencialmente, construindo sua própria obsolescência. A resiliência, portanto, aparece não apenas como uma estratégia de defesa, mas como a própria essência de uma cidade que pretende prosperar em um clima de incertezas constantes.

O futuro das cidades possíveis

O que fica após a partida das delegações é um conjunto de diretrizes que, embora ambiciosas, dependem da vontade política local para ganhar vida. A interrogação que paira sobre as cidades globais permanece: seremos capazes de transformar esses consensos teóricos em bairros vibrantes e acolhedores? A arquitetura do futuro não será medida apenas pela altura de seus arranha-céus, mas pela capacidade de manter o tecido social coeso enquanto o mundo, lá fora, continua a mudar de forma.

O encerramento do fórum em Baku não é uma conclusão, mas um convite para que cada cidade assuma seu papel como protagonista na construção de um habitat que seja, acima de tudo, humano. Enquanto as cortinas se fecham, resta a imagem de uma metrópole que, por alguns dias, tentou mapear o caminho para o lar de todos nós. Será que as cidades que estamos desenhando hoje serão os lugares onde desejaremos viver amanhã?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ArchDaily