O Banco do Brasil (BBAS3) consolidou uma mudança de rota em sua política de concessão de crédito, adotando uma postura nitidamente mais conservadora frente ao aumento da inadimplência no sistema financeiro. A avaliação, detalhada em relatório da Moody’s Ratings divulgado nesta segunda-feira (22), destaca que o banco reduziu significativamente o ritmo de crescimento de sua carteira, projetando uma expansão entre 0,5% e 4,5% para 2026, patamar substancialmente inferior aos 12,9% registrados em 2024.

Essa guinada defensiva contrasta com a atuação de outras instituições sob controle estatal, como a Caixa Econômica Federal e o BNDES. Enquanto o Banco do Brasil prioriza a qualidade dos ativos em resposta à deterioração de sua exposição ao campo, os dois outros gigantes públicos permanecem alinhados à estratégia governamental de utilizar o crédito como motor de estímulo econômico, mantendo ritmos de expansão superiores à média do mercado.

O peso da inadimplência rural

A deterioração da carteira de agronegócio é o principal vetor por trás do freio de arrumação do Banco do Brasil. A instituição, historicamente o maior financiador do setor rural no país, observou um aumento nas perdas desde o final de 2024, o que forçou uma revisão profunda no apetite ao risco. O relatório da Moody’s aponta que o banco cortou entre 25% e 30% as originações vinculadas ao Plano Safra.

Além do campo, o varejo também impõe desafios. A inadimplência em linhas sem garantia — como cartão de crédito e cheque especial — atingiu 6,82% em março de 2026, ante 5,1% no ano anterior. Essa combinação de fatores tem pressionado os lucros trimestrais do banco para os menores níveis desde 2020, exigindo provisões crescentes que limitam a rentabilidade da instituição.

Divergência estratégica entre bancos públicos

Enquanto o Banco do Brasil recalibra seu portfólio, a Caixa e o BNDES assumem posições de expansão. A Caixa, impulsionada por programas habitacionais e de transferência de renda, expandiu sua carteira em 10,9% em 2025. O BNDES, por sua vez, apresenta uma estrutura de capital mais robusta, permitindo que continue financiando grandes projetos de infraestrutura sem o mesmo nível de restrição observado no banco comercial.

Essa dicotomia ilustra os diferentes papéis que o Estado exerce através de suas instituições financeiras. O Banco do Brasil, por ser uma sociedade de economia mista com capital aberto, sente com mais intensidade a pressão dos investidores pela preservação da rentabilidade e qualidade dos ativos, enquanto Caixa e BNDES operam sob uma lógica de fomento que prioriza a execução de políticas públicas anticíclicas.

Desafios macroeconômicos e o tomador final

O cenário de juros elevados, com a Selic em 14,25%, impõe um limite claro à capacidade de endividamento das famílias e empresas. A Moody’s alerta que, embora o crédito público tente sustentar a economia, a qualidade dos ativos continua sob risco. A necessidade de equilibrar mandatos políticos com a saúde financeira dos balanços será o grande teste para os gestores até 2027.

Para o mercado, a questão central é até que ponto a resiliência da Caixa e do BNDES conseguirá compensar a retração do Banco do Brasil sem que isso resulte em uma deterioração sistêmica da carteira de crédito pública no longo prazo.

Perspectivas para o sistema financeiro

A incerteza sobre a demanda para a safra 2026/2027 e a necessidade de regularização de dívidas pelos produtores rurais permanecem como pontos de atenção imediata. A capacidade dos bancos de absorver perdas sem comprometer o fluxo de crédito para setores essenciais definirá a dinâmica do crédito nos próximos trimestres.

O mercado aguarda agora os próximos balanços para verificar se a cautela do Banco do Brasil será suficiente para estancar a sangria nas provisões ou se a pressão sobre a margem financeira exigirá medidas ainda mais drásticas de seleção de risco.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times