Bancos de investimento têm intensificado suas recomendações para empresas de medicina diagnóstica no Brasil, sinalizando uma mudança estratégica no setor de saúde. Nas últimas semanas, instituições como UBS BB e Itaú BBA passaram a recomendar compra para ações de companhias como Dasa e Fleury, respectivamente. Esse movimento representa uma rotação de carteira no fim do terceiro trimestre, com os laboratórios voltando a apresentar crescimento lucrativo em um ritmo que desafia hospitais e operadoras de planos de saúde.
As ações do Fleury (FLRY3) já acumulam alta de cerca de 50% no ano, enquanto o UBS BB iniciou a cobertura da Dasa (DASA3) — dona de marcas como Delboni e Lavoisier — com recomendação de compra. Em contrapartida, a Hapvida (HAPV3) viu seu lucro quase desaparecer, e redes hospitalares como Kora Saúde (KRSA3) e Oncoclínicas (ONCO3) precisaram recorrer à recuperação extrajudicial, afastando investidores. Esse cenário aproxima o Brasil dos mercados maduros, onde empresas de diagnóstico tendem a valer mais na bolsa do que operadoras de hospitais, segundo o BTG Pactual.
A virada da medicina diagnóstica
A medicina diagnóstica demonstra uma resiliência e capacidade de crescimento que a diferenciam no setor de saúde. Segundo análise da consultoria Peers Consulting + Technology, o lucro do Fleury cresceu 45,7% no segundo trimestre, enquanto o da Hapvida encolheu 95,8%. A consultoria destaca que a medicina diagnóstica é menos dependente de reajustes regulatórios e mais sensível à escala e ao mix de serviços oferecidos. Isso permite que empresas do setor consigam, com frequência, aumentar sua receita e margem de forma conjunta, um feito cada vez mais raro em outras áreas da saúde.
O otimismo em torno da Dasa, em particular, concentra-se em sua capacidade de expansão em medicina diagnóstica. O analista Olavo Arthuzo, do UBS BB, projeta um crescimento anual de 5,5% na receita de diagnósticos da Dasa até 2030, superando a média do setor. Esse avanço deve ser impulsionado pela expansão de laboratórios independentes que terceirizam análises e pelo crescimento da marca premium Alta Diagnósticos, com potencial de expansão para novas regiões. Arthuzo observa que a recente melhora operacional da Dasa sugere uma recuperação em andamento, ainda sem total reflexo no preço de suas ações.
Hospitais: um cenário de exceções
Enquanto a medicina diagnóstica floresce, o setor hospitalar apresenta um panorama mais desafiador, com exceções notáveis. A Rede D’Or (RDOR3) surge como um exemplo de resiliência, com um crescimento de Ebitda superior ao da receita, impulsionado por procedimentos complexos e de maior valor agregado, como os cardíacos, neurológicos e oncológicos. O analista do BTG Pactual, que recomenda compra da Rede D’Or, destaca que a escala da empresa permite a consolidação de densidade cirúrgica e complexidade clínica, o que se traduz em maior poder de precificação junto às operadoras.
Por outro lado, a Hapvida tem enfrentado dificuldades, decidindo reajustar ou cancelar contratos de centenas de milhares de clientes deficitários. A reestruturação da Hapvida pode refletir uma expansão anterior para regiões com infraestrutura hospitalar inadequada. A capacidade de execução de seus planos e a geração de caixa e desalavancagem serão cruciais para reverter a percepção de risco dos investidores, segundo análise do BB Investimentos. A Kora Saúde e a Oncoclínicas buscam renegociar suas dívidas, evidenciando as pressões financeiras no segmento hospitalar.
Implicações e o futuro do setor
A mudança de foco dos bancos para a medicina diagnóstica aponta para uma reconfiguração do setor de saúde no Brasil. Empresas com modelos de negócio focados em escala, tecnologia e procedimentos de maior valor agregado tendem a se destacar. A Dasa e o Fleury, com suas estratégias de expansão e aposta em serviços premium, parecem bem posicionadas para capitalizar essa tendência. A Rede D’Or, ao focar em complexidade clínica e cirúrgica, também mostra um caminho para a sustentabilidade no segmento hospitalar.
O desempenho futuro das ações dependerá, em grande parte, da execução das estratégias de cada companhia. A saúde privada brasileira, que já se recuperou do choque da pandemia, entra em uma nova fase, onde a eficiência operacional, a capacidade de inovação e a gestão financeira serão determinantes. As empresas que conseguirem demonstrar crescimento consistente de margens e geração de caixa, ao mesmo tempo em que gerenciam seus passivos, terão maior probabilidade de atrair e reter o interesse dos investidores.
O cenário atual sugere que a medicina diagnóstica oferece um caminho mais promissor para o crescimento lucrativo no curto e médio prazo, enquanto os hospitais precisarão demonstrar maior resiliência e capacidade de adaptação para acompanhar o ritmo do mercado. A consolidação e a especialização parecem ser as chaves para o sucesso em um setor cada vez mais competitivo e exigente.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





