Luiz Barsi, conhecido no mercado como o “Rei dos Dividendos”, oficializou um posicionamento que reflete o ceticismo de parte do investidor institucional e pessoa física em relação às estatais brasileiras. Em entrevista ao canal Primo Rico, o megainvestidor declarou que não pretende realizar novos aportes em ações do Banco do Brasil (BBAS3) enquanto a atual gestão de esquerda estiver no comando do país. A fala, embora pessoal, sublinha uma tensão persistente entre a eficiência operacional da companhia e o risco percebido de ingerência política.
O cenário financeiro que serve de pano de fundo para essa declaração é complexo. Embora o Banco do Brasil tenha registrado valorização de cerca de 30% sob o atual governo, as ações enfrentam volatilidade recente, pressionadas pela deterioração de resultados e pela inadimplência crescente no setor de agronegócio. Com o papel negociado abaixo de R$ 20, o mercado demonstra cautela, especialmente após a revisão para baixo das projeções do banco para 2026.
O abismo entre preço e valor patrimonial
O argumento central de Barsi reside na métrica de preço sobre valor patrimonial (P/VPA). Com o banco negociado a aproximadamente 0,80x seu valor patrimonial, o investidor aponta que, em condições normais de mercado, o ativo deveria operar com ágio, ou ao menos próximo ao valor contábil, que gira em torno de R$ 32. A persistência desse desconto é, na visão do investidor, um reflexo direto da desconfiança do mercado quanto à governança e à destinação de recursos da estatal.
Essa dinâmica não é exclusiva do Banco do Brasil, mas ganha contornos dramáticos em estatais devido ao risco de que a alocação de capital seja guiada por diretrizes governamentais em detrimento da maximização do retorno ao acionista. A percepção de que o governo pode utilizar o banco como ferramenta de política econômica, reduzindo margens para atender a objetivos sociais ou setoriais, cria um teto artificial para a valorização dos papéis, independentemente da qualidade dos balanços trimestrais.
A busca por alternativas no setor financeiro
Ao descartar novos aportes no Banco do Brasil, Barsi sinaliza uma realocação de capital para instituições que, embora também enfrentem desafios, oferecem teses de investimento baseadas em eventos específicos ou descontos extremos. O exemplo citado pelo investidor, o Banco Bmg (BMGB4), ilustra essa estratégia de buscar ativos com múltiplos de entrada muito baixos, onde a assimetria de risco-retorno parece mais favorável sob uma perspectiva puramente técnica.
O caso do Banrisul (BRSR6) reforça essa tática oportunista. Após as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, a queda abrupta nas cotações foi interpretada pelo investidor como uma oportunidade de entrada para capturar dividendos, demonstrando que o apetite por risco em bancos regionais ou menores permanece, desde que o preço de entrada compense a incerteza macroeconômica e os riscos operacionais inerentes ao setor bancário brasileiro.
O impacto da governança nas estatais
As implicações desse posicionamento são diretas para os demais stakeholders. Reguladores e gestores públicos enfrentam, em situações como esta, o desafio de convencer o mercado de que o Banco do Brasil mantém sua autonomia operacional. Para os investidores, a fala de Barsi serve como um lembrete de que, no Brasil, o risco político é uma variável quantificável e, muitas vezes, determinante na precificação de ativos estratégicos.
Para a concorrência, o movimento de desinvestimento ou a pausa na alocação por parte de grandes nomes do mercado abre espaço para que investidores com diferentes horizontes de tempo e perfis de risco reavaliem suas posições. A tensão entre o valor intrínseco de uma empresa e o risco de governança continuará sendo o principal driver de volatilidade para as estatais brasileiras nos próximos anos.
Incertezas sobre a trajetória de longo prazo
O que permanece em aberto é se a deterioração dos resultados no agronegócio será contornada com agilidade pela gestão ou se a tendência de queda nos lucros se consolidará. A confiança do mercado em relação ao Banco do Brasil dependerá de sinais claros de que a rentabilidade será preservada, mesmo diante de um ambiente econômico desafiador e de pressões políticas constantes.
O mercado observará atentamente os próximos balanços para verificar se o desconto patrimonial será reduzido ou se o ceticismo expresso por investidores de peso se tornará uma profecia autorrealizável. A capacidade de a instituição manter sua disciplina financeira, independentemente do ciclo político, será o fiel da balança para os próximos trimestres.
A posição de Barsi ilustra o dilema de quem investe em estatais: a busca por dividendos e valorização esbarra, inevitavelmente, na política. Resta saber se o mercado seguirá essa cautela ou se a atratividade dos múltiplos atuais será suficiente para atrair novos fluxos, independentemente do cenário político nacional. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





