O BB Investimentos atualizou suas projeções para as administradoras de shoppings Allos (ALOS3) e Multiplan (MULT3), reiterando a recomendação de compra para ambas as companhias. A revisão, que incorporou os resultados do primeiro semestre de 2026, elevou o preço-alvo para o fim de 2027 de MULT3 de R$ 35 para R$ 41, e o da ALOS3 de R$ 32 para R$ 38. Segundo o relatório do banco, o setor de shoppings no Brasil atravessa um momento de transição. Após a desaceleração imposta pela pandemia de covid-19 em 2020 e uma recuperação robusta nos anos subsequentes, as principais empresas listadas no mercado demonstram um ritmo de crescimento operacional que supera a média nacional.

Um Setor em Renovação

O cenário para o setor de shoppings no Brasil tem sido marcado por uma dinâmica particular. Dados da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) indicam que o crescimento de vendas no setor como um todo ficou em apenas 1,3% entre 2024 e 2025. Em contraste, a Allos e a Multiplan registraram crescimentos de vendas nas mesmas lojas (SSR) de 6,2% e 7,5%, respectivamente, no mesmo período. O BB Investimentos observou que ambas as empresas apresentaram crescimento de SSR acima da inflação no primeiro semestre de 2026, um feito que não se via no mercado consolidado nacional desde 2022. A principal fonte de receita dessas companhias, o aluguel de espaços físicos, é geralmente protegida pela inflação, com contratos de cinco anos reajustados anualmente e revisões periódicas. Essa estrutura tende a garantir uma receita relativamente estável, embora fatores específicos possam influenciar os índices no curto prazo.

Dinâmicas e Diversificação

A Allos tem explorado novas avenidas de crescimento além do aluguel tradicional. No segundo trimestre de 2026, a companhia anunciou um memorando para a criação de um fundo imobiliário (FII) com a Kinea Investimentos, envolvendo participações em sete shoppings. Embora essa operação possa reduzir a área bruta locável (ABL) própria, a Allos pretende manter uma participação significativa no fundo, garantindo receita indireta. Paralelamente, a empresa tem visto um crescimento expressivo em outras linhas de negócio. A receita com estacionamentos registrou alta de 4,5% no segundo trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, enquanto a linha de serviços, impulsionada pela subsidiária Helloo (mídia out-of-home), cresceu 21%. A participação da Allos em um consórcio vencedor da concessão de 17 aeroportos brasileiros adiciona outra frente de diversificação. Financeiramente, a relação dívida líquida/Ebitda da Allos, atualmente em 1,7 vez, está em patamar confortável e abaixo do histórico, com projeção de aproximação a 2 vezes, bem abaixo dos covenants de 4 a 4,5 vezes. A forte geração de caixa proveniente de seu portfólio de shoppings e de novas linhas de negócio, como mídia e incorporação imobiliária, ameniza o impacto das despesas financeiras.

Estratégias e Desalavancagem

A Multiplan, por sua vez, tem focado em um processo contínuo de reciclagem de ativos, como a venda de uma participação minoritária no ParkShoppingBarigüi por R$ 250 milhões. Seu portfólio gerou R$ 1,7 bilhão em receitas de aluguel nos últimos 12 meses, com crescimento de 5,2%, impulsionado por expansões recentes em shoppings como MorumbiShopping e BH Shopping. Os estacionamentos também apresentaram forte desempenho, com um aumento de 9,7% na receita em comparação com o ano anterior. A companhia tem priorizado a desalavancagem financeira após utilizar parte de seu caixa para recomprar ações de um investidor institucional no final de 2024. Esse movimento elevou a relação dívida líquida/Ebitda para 2,3 vezes, mas a geração de caixa operacional e recursos de desinvestimentos permitiram que o indicador caísse para 1,9 vez no 2T26. A estratégia demonstra um foco em otimizar a estrutura de capital e fortalecer a posição financeira da empresa.

Riscos e Perspectivas Futuras

Os riscos para a tese de investimento na Allos incluem a persistência de juros altos por mais tempo que o previsto, um crescimento econômico doméstico mais lento, aumento do desemprego, ou um descasamento entre os índices de inflação e os reajustes de aluguel. Para a Multiplan, os riscos apontados são dificuldades na manutenção do mix de lojas, impactando a taxa de ocupação, crescimento abaixo do esperado na ocupação e nos aluguéis por metro quadrado, e vendas aquém das projeções. A análise do BB Investimentos sugere que, apesar desses riscos, as estratégias de diversificação e gestão de dívida posicionam ambas as empresas de forma resiliente.

O cenário para o setor de shoppings, embora desafiador, mostra sinais de recuperação e adaptação, com empresas como Allos e Multiplan buscando ativamente novas fontes de receita e otimizando suas operações. A capacidade de navegar pelas incertezas macroeconômicas e manter o crescimento operacional será crucial para o desempenho futuro dessas companhias.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times