No final da década de 1920, o epicentro cultural do Ocidente não era Paris ou Nova York, mas uma Berlim febril e efervescente. No palco dessa cidade, a liberdade artística da República de Weimar atingia seu apogeu, produzindo obras que redefiniram a dramaturgia moderna. Mas sob as luzes da ribalta, as mesmas forças que em breve mergulhariam a Alemanha e o mundo na escuridão já ensaiavam seus papéis. Em um intervalo de pouco mais de um ano, duas peças encapsularam essa dualidade: o sucesso estrondoso de “A Ópera dos Três Vinténs” e o escândalo incendiário de “O Mercador de Berlim”.

O que se desenrolava nos teatros berlinenses não era um mero debate estético. Era um espelho das contradições de uma sociedade no limite. Conforme detalhado em um trecho do livro “Berlin Before and After”, de Wendy Lesser, publicado pelo portal literário Lit Hub, o palco tornou-se um campo de batalha para as ideias que disputavam a alma da nação. A questão central, que ecoa até hoje, era onde terminava a provocação artística e onde começava o discurso de ódio, e se uma sociedade livre, mas fraturada, seria capaz de discernir a diferença a tempo.

A crítica como espetáculo

Em agosto de 1928, a estreia de “A Ópera dos Três Vinténs”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, foi um fenômeno. A obra, um híbrido de sátira, comentário político e musical, capturou o espírito do tempo. Sua crítica mordaz à hipocrisia burguesa, embalada em melodias cativantes que transitavam do cabaré ao sentimentalismo, foi abraçada pelo público. A peça transformou a crítica social em um espetáculo irresistível, consagrando Brecht e Weill e tornando-se o maior sucesso da temporada. O establishment cultural, da crítica especializada à aristocracia, rendeu-se à produção que expunha um mundo onde todos, da polícia aos bandidos, eram corruptos.

O cenário mudou drasticamente um ano depois. Em setembro de 1929, a tentativa de Brecht e Weill de replicar a fórmula com “Happy End” resultou em um fracasso retumbante. Poucos dias depois, no entanto, um escândalo de outra magnitude explodiu com a estreia de “O Mercador de Berlim”, de Walter Mehring, com direção do inovador Erwin Piscator. A peça era uma releitura ácida de “O Mercador de Veneza”, de Shakespeare, ambientada na hiperinflação de 1923. Seu protagonista, Kaftan, um judeu do leste europeu, era retratado como uma caricatura, explorando de forma explícita o antissemitismo da sociedade alemã e, de forma ainda mais controversa, as tensões entre judeus assimilados e recém-chegados.

O palco como campo de batalha

A reação a “O Mercador de Berlim” foi imediata e violenta, transcendendo a crítica teatral. A peça foi acusada simultaneamente de promover agitação pró-judaica e de disseminar discurso de ódio antissemita. A controvérsia, porém, foi instrumentalizada politicamente. Sob a liderança de Joseph Goebbels, as tropas de assalto do partido nazista, a SA, organizaram protestos massivos em frente ao teatro. Goebbels foi além, distribuindo um panfleto intitulado “Para a forca!”, que atacava Mehring diretamente e incitava à violência. O texto, carregado de retórica odiosa, descrevia o povo judeu como “incriativo”, “parasitário” e responsável por “arruinar a raça” e “corromper a moral” da Alemanha.

A leitura aqui é que o episódio foi um ponto de inflexão. A violência política, antes restrita às ruas e aos comícios, invadia abertamente o espaço da alta cultura. O que choca, em retrospecto, é como muitos contemporâneos interpretaram o evento. Segundo a análise de Lesser, a agitação foi vista por parte da elite berlinense como apenas mais um elemento da “atmosfera ousada” da cidade, e não como um presságio do que estava por vir. A linha entre a liberdade de expressão e a incitação ao extermínio, que parecia clara nos salões intelectuais, mostrava-se perigosamente turva na prática. O dramaturgo Mehring, que era judeu, acabou por se exilar.

Naquele setembro de 1929, a apenas algumas semanas do crash da bolsa de Nova York que aprofundaria a crise alemã e aceleraria a ascensão de Hitler, o teatro de Berlim ofereceu um vislumbre nítido do futuro. A arte, em sua tentativa de diagnosticar as doenças da sociedade, acabou por se tornar um sintoma. A questão sobre se a visão exagerada e fantástica de Mehring sobre golpes de direita e antissemitismo virulento poderia se tornar realidade foi respondida de forma brutal menos de quatro anos depois.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Lit Hub