O setor de locação de veículos no Brasil enfrenta uma mudança estrutural significativa com a implementação da reforma tributária. Segundo análise divulgada pelo Bank of America (BofA), a transição para o novo modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) deve pressionar os lucros líquidos das companhias no curto prazo, mas trará um impacto positivo e compensatório sobre a geração de caixa.
A Lei Complementar 214/2025 estabeleceu regras específicas para a transição do IBS e da CBS sobre a venda de ativos imobilizados. Esse novo cenário antecipa créditos tributários relacionados ao investimento em frotas e reduz a carga efetiva na desmobilização de veículos, criando uma dinâmica mais favorável para o fluxo de caixa das empresas do setor.
Impacto da transição tributária
A leitura do mercado sobre o impacto do IVA nas locadoras tem sido cautelosa, mas o BofA argumenta que a visibilidade sobre o modelo de transição permite uma visão mais construtiva. O banco estima que a mudança injete R$ 3,3 bilhões de fluxo de caixa incremental para a Localiza no biênio 2027-28, enquanto para a Movida o ganho projetado é de R$ 1,2 bilhão.
Para a Movida, esse valor representa cerca de 31% de seu valor de mercado, configurando-a como a maior beneficiária relativa da nova legislação. A lógica reside no fato de que os créditos de capital (Capex) crescem rapidamente, enquanto a expansão nas deduções de seminovos possui um efeito retardado sobre o caixa, favorecendo a liquidez das companhias durante o período de transição.
Dinâmica de preços e margens
Para manter o retorno sobre o capital investido (ROIC) de longo prazo, o BofA projeta que as locadoras precisarão realizar ajustes tarifários. A estimativa é de que a Movida necessite elevar as tarifas em 8% no aluguel de carros e 4% na gestão de frotas até 2036, enquanto a Localiza precisaria de aumentos de 9% e 5%, respectivamente.
O repasse é considerado viável pelo banco devido à forte demanda corporativa, que responde por dois terços do mercado e possui mecanismos para absorver a nova carga. Contudo, o público pessoa física, que não recupera créditos tributários, pode enfrentar uma barreira maior de acessibilidade, o que exige monitoramento constante por parte das empresas.
Riscos para o setor
O BofA alertou para uma queda de 1 ponto percentual nos preços dos carros no Brasil entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro de 2027. O aumento da concorrência, inclusive com a entrada de marcas chinesas, pressiona o mercado de seminovos, que é fundamental para a estabilidade das margens das locadoras.
Apesar do otimismo com o caixa, o banco revisou para baixo a estimativa de lucro líquido da Movida para 2027, reduzindo-a para R$ 448 milhões. O ajuste reflete não apenas o impacto do IVA, mas também taxas de juros mais elevadas e a perspectiva de desvalorização dos ativos.
Perspectivas futuras
O cenário permanece dependente da estabilidade econômica doméstica e da trajetória da taxa Selic. A capacidade das empresas em gerir a depreciação de suas frotas será o diferencial para manter a lucratividade em um ambiente de preços de veículos mais voláteis.
O mercado aguarda a maturação desses efeitos tributários nos próximos trimestres. A transição não é linear e as companhias que demonstrarem maior resiliência na gestão de capital terão vantagem competitiva, enquanto o investidor deve observar se o ganho de caixa será suficiente para compensar o arrasto nos lucros.
A trajetória das locadoras nos próximos dois anos servirá como um teste para a eficácia do novo modelo tributário no setor de serviços de capital intensivo. O sucesso dessa adaptação definirá os próximos patamares de valorização para os papéis de Movida e Localiza.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





